Coalizão altera de novo equilíbrio no Oriente

Uma década depois de o ex-presidente americano George Bush ter liderado uma improvável coalizão de países ocidentais e árabes para expulsar o Iraque do Kuwait, o mundo volta a ver uma configuração semelhante, dessa vez sob a liderança de seu filho, George W. Bush. Uma das conseqüências mais importantes da Guerra do Golfo foi o início do processo de paz no Oriente Médio. O ataque terrorista aos EUA e a formação de uma nova coalizão com feições semelhantes à de dez anos atrás coincidem com o pior momento do processo de paz. Será que pode relançá-lo?A onda mundial de indignação contra o ataque aos EUA levou o líder palestino, Yasser Arafat, a distanciar-se do terrorismo, anunciando sua participação na nova "coalizão antiterrorista" e exortando a Liga Árabe a fazer o mesmo.Mas, segundo o pesquisador israelense Hilel Frisch, do Centro Beguin-Sadat de Estudos Estratégicos e do Instituto Truman, há duas diferenças importantes entre a situação de dez anos atrás e a de hoje. "Na primeira tentativa de estabelecer a coalizão, os palestinos foram favorecidos pelo reconhecimento da comunidade internacional, que os colocou no mesmo patamar que Israel, apesar do passado terrorista da OLP (Organização de Libertação da Palestina)", lembra. "Desta vez, a hierarquia será muito mais favorável a Israel", acha ele, como conseqüência do terrorismo palestino e de seus paralelismos com o ataque aos EUA.Em contrapartida, observa Frisch, da outra vez, os palestinos foram flagrados do lado errado, apoiando o Iraque. A aproximação com os EUA só ocorreu "depois da erradicação do mal", ou seja, da vitória sobre o Iraque. Desta vez, a liderança palestina procura incorporar-se desde o início - e é difícil saber se haverá uma "vitória", quando o inimigo parece, de antemão, bem mais difuso do que dez anos atrás.O sociólogo israelense Michael Shalev também vê ambigüidades na atual situação. De um lado, "Arafat agora sente que a onda se voltou contra ele e pode concluir que não dá mais para desempenhar um papel duplo", diz o sociólogo, seguindo a interpretação israelense, segundo a qual o presidente da Autoridade Palestina (AP) não toma medidas concretas para conter o terrorismo, embora procure distanciar-se dele. Outra possibilidade é a de que Israel, contando agora com maior compreensão por parte dos EUA e de outros países, passe a combater o terrorismo palestino com mais contundência ainda, recebendo aval, por exemplo, para atacar escritórios da AP, como já tem feito nos últimos dias. Sejam quais forem as conseqüências, a conclusão é uma só: assim como ocorreu com a Guerra do Golfo, a formação dessa nova coalizão mudará mais uma vez a face dessa região.

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