Coalizão antiterror não é tão unida como parece

A coalizão montada por George W. Bush impressiona por seu tamanho e por sua universalidade, já que reúne tanto os "aliados" europeus, os Estados árabes ou muçulmanos, quanto a China e a Rússia. É bem verdade que temos aí dois fatos notórios: de um lado, o Taleban, com sua atitude antipática; do outro, o secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, provável arquiteto da coalizão, é um diplomata sofisticado. No entanto, se examinarmos mais detidamente a situação, observamos com um certo receio que a "coalizão" não é tão sólida, homogênea e estável quanto se acreditava no início. Com relação à Europa, não há problema, já que os europeus sempre foram aliados indefectíveis dos americanos (com críticas e uma certa exasperação, mas sempre fiéis). O fato é que os europeus, enquanto ocidentais e cristãos, também estão ameaçados pelos "loucos de Deus". Há, porém, dois inconvenientes nessa brigada européia. Em primeiro lugar, é pouco entusiasmada. Todos os países dizem estar decididamente ao lado dos americanos, mas falta convicção, com exceção dos ingleses. A França, por exemplo, enviará dois navios. Um "serviço mínimo", sem dúvida. Além disso, a participação européia tem se mostrado totalmente heterogênea. O contraste entre o primeiro-ministro francês, Lionel Jospin, e seu colega britânico, Tony Blair, é flagrante. Jospin, triste, constrangido, circunspecto. Tony Blair, fulgurante, "churchilliano", grandioso, quase heróico, despachando para o campo de batalha um volume considerável de forças. A coalizão, entretanto, ganha contornos mais estranhos ainda, e talvez mais perigosos, quando olhamos para a Ásia. Ali, Colin Powell teve de negociar com o "diabo". Num momento de pânico, de urgência, países desprezados e rejeitados há tempos foram cortejados e arrebanhados para a causa. Será, porém, que é possível confiar nesses países assim arregimentados? É certo que no Oriente Médio, com exceção de Bagdá (que naturalmente não foi consultada), todas as demais capitais aceitaram fazer parte da coalizão, mas com que restrições! Em Damasco, os sírios dizem que lutarão contra o terrorismo, mas deixam claro que os atentados perpetrados por grupos como o Hamas ou a Jihad palestina não merecem, em sua opinião, a chancela de "terroristas". Ah, é? O Al-Baas, importante jornal do governo sírio, indaga: "Como podem os EUA fazer campanha contra o terrorismo se eles mesmos apóiam o terrorismo israelense? Até os países "moderados" (Jordânia, Egito e Líbano) estão literalmente "pisando em ovos". Em todos eles, uma opinião pública irritada põe a culpa de tudo na política americana (o bloqueio cruel imposto ao Iraque, o apoio a Israel). Em primeiro lugar, esses países muçulmanos jamais aceitarão que Washington se aproveite da emoção atual para levar a cabo aquilo que o pai do atual presidente não conseguiu em 1990: a destruição do Iraque. O caso da Arábia Saudita e do Paquistão é mais complicado. Esses dois países tinham uma mesma peculiaridade, isto é, a de serem ambos aliados dos Estados Unidos (sobretudo por causa do petróleo, mas também por motivos financeiros e geoestratégicos). Mas, além disso, também estavam muito próximos dos "islâmicos" mais radicais, financiando os terroristas, o Taleban, bin Laden, etc. (é incrível o número de sauditas identificados entre os responsáveis pela preparação dos horrores de 11 de setembro!). Enquanto o Paquistão parece ter cedido às recompensas prometidas por Washington, a Arábia Saudita não demonstra disposição de dar muita ajuda militar a Bush. Talvez seja este o motivo por que Bush, tão tolerante em relação ao primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, tenha agora se manifestado bruscamente favorável à criação do Estado palestino (não nos esqueçamos de que a guerra árabe-israelense é um espinho que infecta toda a diplomacia ocidental). Além dos países muçulmanos ou árabes, a "coalizão" formada por Washington encerra outros ´buracos negros" e perigos. A China sorri para os EUA, mas por quê? Porque ninguém mais a aborrece com questões de "direitos humanos" (a China, além do mais, também possui uma comunidade islâmica em Xinjiang, os uigures). E agora, o mais grave: Putin, que se apressou a integrar a coalizão. Boa jogada, Vladimir! São dois os seus objetivos: aproximar-se do Ocidente e, quem sabe, conseguir, por um lado, que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) lhe abra as portas; e, por outro, divertir-se à vontade com as operações sangrentas em andamento na Chechênia muçulmana.

Agencia Estado,

04 Outubro 2001 | 19h00

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