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Coalizão governista está em risco na Itália

Salvini e Di Maio são incompatíveis e a eleição europeia pode causar o fim do governo dividido

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2019 | 05h00

As eleições europeias, comumente insípidas e rapidamente esquecidas, este ano adquiriram uma energia inesperada. Funcionaram como uma bomba de fragmentação, atingindo a Áustria, que desde terça-feira não tem mais governo, e também o Reino Unido, agora condenado a um “Brexit duro”.

A Itália não escapou do furacão. Ninguém sabe em que estado sairá o governo que se instalou no país há um ano. Importante dizer que se trata de um governo fora do normal, pois conjuga dois partidos incompatíveis: de um lado, a Liga, dominada pelo brilhante Matteo Salvini, considerado um neofascista, e de outro o Movimento 5 Estrelas (M5S), fundado pelo comediante Beppe Grillo e um técnico de informática, Gianroberto Casaleggio.

Entre as duas legendas há poucas semelhanças. A Liga emana da alta burguesia rica de Milão e Torino. O M5S atrai, ao contrário, as populações miseráveis do sul do país. Os dois partidos têm um único ponto em comum: a desconfiança da União Europeia. Juntos, governam a Itália há um ano, com duas figuras dominantes: Salvini, o todo poderoso ministro do Interior, e Luigi di Maio, do M5S.

A eleição europeia de domingo encheu de alegria as tropas de Salvini, que obteve 30% dos votos, ao passo que o M5S recebeu apenas 17%. Na segunda-feira, Salvini apareceu mostrando seu júbilo, ao passo que o dirigente do M5S não foi visto em nenhum lugar. Depois, acabou se manifestando e, com uma voz apagada, anunciou a “derrota histórica” do seu partido.

Assim, os populistas do M5S desabaram e Salvini pode a qualquer momento estrangular esse associado moribundo. Aliás, ele poderá usar rapidamente esse “direito de vida e morte” que tem agora contra Di Maio. Salvini é um homem sutil e um pouco cruel: o que há de mais confortável do que estar associado a um partido à beira do colapso?

Assim, vemos um homem forte e poderoso no comando da Itália – que desfrutará desse poder com grande prazer. Ele deve dar muita dor de cabeça aos comissários europeus de Bruxelas. Por exemplo, ele prepara um enorme plano de redução de impostos (¤ 30 bilhões), medida que vai contra os compromissos europeus assumidos em Roma. O que vai ocorrer? Bruxelas dará gritos e Salvini se divertirá.

Ele também deve endurecer suas decisões sobre a acolhida de imigrantes. E não importa se Bruxelas questionar. Salvini reina em sua casa. Outro conflito previsível: o ministro de Infraestrutura, Edoardo Bixi, da Liga, foi indiciado por atos desonestos cometidos na Ligúria.

Normalmente, ele deveria ser punido, talvez mesmo expulso do governo. Mas Salvini já advertiu que seu secretário continuará na função. Com base em que lei? Nenhuma, apenas em virtude do beneplácito do senhor Salvini.

Vemos assim que o novo homem forte da Itália teria razões para amar loucamente essa União Europeia que lhe permitiu multiplicar seus poderes. Mas não! Se a ama, é à sua maneira, para humilhá-la. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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