Coalizão política anti-Morsi mostra divisões internas

Divergências contribuem para bloqueio à nomeação de ElBaradei como premiê; egípcios voltam às ruas do Cairo em 2 manifestações

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2013 | 02h04

O Egito entrou ontem em seu quinto dia pós-golpe militar mais dividido do que nunca. Depois de se dividir entre opositores do governo deposto e islamistas que apoiam o presidente destituído, Mohamed Morsi, agora é a Frente de Salvação Nacional (FSN), coalizão de partidos contrários à Irmandade Muçulmana, que apresenta fissuras.

A maior divergência diz respeito à nomeação do Prêmio Nobel da Paz Mohamed ElBaradei para o cargo de premiê, escolha que foi vetada pelo partido salafista Al-Nour (partido da luz, em árabe). Nas ruas, a mobilização voltou a se intensificar ontem.

Os sinais de divisão no interior da FSN apareceram desde sábado, quando o movimento Tamarod (rebelde, em árabe), precursor da mobilização que resultou na destituição de Morsi, anunciou que ElBaradei seria nomeado primeiro-ministro pelo presidente interino, Adli Mansour. O próprio governo chegou a confirmar a escolha mas, horas depois, foi obrigado a voltar atrás, sob pressão do Al-Nour, dissidente da Irmandade Muçulmana. O advogado Ziaad Bahaa el-Din deve ser nomeado premiê, informou um porta-voz da presidência. ElBaradei deve ser nomeado vice-presidente interino.

Segundo Nader Bakkar, porta-voz do partido salafista, o compromisso firmado pelos membros da frente de oposição a Morsi era que apenas tecnocratas assumiriam os postos-chave no governo de transição, sem lideranças políticas.

"ElBaradei não é politicamente neutro, nem um tecnocrata. Ele está em competição com a Irmandade", alegou Bakkar. "Se o escolhermos, não conseguiremos convencer o povo de que não se trata de um golpe militar para isolar Morsi e instalar ElBaradei", acrescentou.

A nomeação do Prêmio Nobel também acentuou ainda mais a divisão entre militantes pró e contra o chefe de Estado destituído. Na manhã de ontem, a Irmandade Muçulmana deu mais uma demonstração de força, reunindo dezenas de milhares de pessoas em seu acampamento em Nasr City, no norte do Cairo. Durante a oração do meio-dia, houve novos apelos por mobilização em favor de Morsi.

ElBaradei tornou-se o principal alvo da cólera dos islamistas, ao lado do general Abdel Fattah Al-Sisi, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. "Se ElBaradei for escolhido, não o reconheceremos. Nem ele, nem suas medidas", advertiu o médico Gemal Adel Mohamed, membro da Irmandade. "ElBaradei não vai nem mesmo ser o escolhido, porque ninguém quer assumir a responsabilidade pelo que está ocorrendo no Egito", disse Wafaa Hefny, doutora do instituto de línguas da Universidade Al-Azhar, no Cairo.

Horas depois, foi a vez da classe média secular do Cairo ir às ruas e se reunir na Praça Tahrir. Vindos principalmente dos bairros de Zamalek e Gezira, os manifestantes empunhavam cartazes contra o presidente dos EUA, Barack Obama, e a embaixadora americana no Egito, Anne Patterson, acusando os americanos de apoiarem Morsi contra a "vontade popular".

"Estamos mandando um sinal para Obama. Os islamistas radicais atacaram os EUA e eles não aprenderam a lição", argumentou o cirurgião Farouk al-Feak. "Os islamistas são mentirosos e estão aliados aos EUA, enquanto nós tentamos construir um Egito moderno."

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