Coalizão rude

Aliança tem pouca consideração pelo que israelenses sentem

SHMUEL, ROSNER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2015 | 02h00

O novo governo de Israel não será fácil de engolir para muitos israelenses. Ele tem como base uma maioria parlamentar muito estreita: 61 cadeiras para a coalizão de Binyamin Netanyahu e 59 cadeiras para a oposição. Mas, ao formar a coalizão, Netanyahu e os partidos que se juntaram a ele mostraram pouquíssima consideração pelo que outros israelenses sentem. É fato que Naftali Bennett, o novo ministro de Educação, prometeu que o novo governo seria "de toda a nação de Israel". Mas atos falam mais do que palavras. Com uma maioria mínima, esta coalizão pretende fortalecer os ultraortodoxos, extinguir reformas encaminhadas pela coalizão anterior mais centrista liderada por Netanyahu, reduzir o poder da Suprema Corte e atender aos interesses dos setores da população que votaram em seus membros à custa de todo os demais.

É lamentável. A coalizão deveria ter mais consideração pelas ansiedades crescentes de seus concidadãos. Aliás, ela é obrigada a fazê-lo: esse é o ônus de uma maioria governante.

Uma coalizão de direita e religiosa esteve no poder na maior parte dos últimos 40 anos em Israel. A esquerda continua encolhendo. Num levantamento recente, somente 7% dos judeus de Israel se declararam de "esquerda" e somente 15% de "centro-esquerda". Os partidos de esquerda e centro-esquerda se mostraram repetidamente incapazes de formar ou liderar uma coalizão.

Em 1977, o primeiro governo à direita do centro de Israel foi estabelecido por Menachem Begin. Desde então, somente 3 ou 4 dos 17 governos foram à esquerda do centro. Mas, por estranho que pareça, a proeminência da direita é uma realidade política que muitos israelenses ainda têm de entender e aceitar. Mas, assim como a esquerda tem dificuldade de se acostumar com o lado perdedor, a direita parece ter dificuldade de aceitar sua condição de maioria claramente estável. Ela tem o poder, mas continua agindo como uma insurgência investindo contra barricadas que imagina controladas pela esquerda: a mídia, os tribunais, as universidades. O resultado lamentável é um país que está ficando assustado.

Os israelenses à esquerda do centro têm medo de que a direita despreze os pilares da democracia israelense. Eles temem que os partidos religiosos acabem com a liberdade pessoal. Os israelenses à direita também estão com medo. Eles compram a retórica de seus líderes e temem que a esquerda continue prejudicando Israel ao difamar seu nome no mundo. Temem que a esquerda continue secularizando o país até não haver uma alma judaica. Cada facção exagera o que o outro lado diz e faz.

Com a volta de Netanyahu ao cargo para um quarto mandato, são os eleitores à esquerda - e não os à direita - que têm mais razões para estar inquietos. O novo governo faria bem em ajudar a acalmá-los, em vez de prejudicar a nação como um todo ao incitar seus medos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É EDITOR DE POLÍTICA EM

'THE JEWISH JOURNAL'

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