''Cobrarei ações reais de Dilma sobre Irã''

Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz de 2003 e dissidente iraniana

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2011 | 00h00

Uma das principais opositoras do regime de Mahmoud Ahmadinejad, a iraniana Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz de 2003, planeja desembarcar no Brasil no mês que vem para tentar convencer o Congresso, líderes de partidos e a presidente Dilma Rousseff a romper com a politica que Luiz Inácio Lula da Silva conduzia em relação ao Irã.

Em entrevista ao Estado, Shirin elogia a nova posição adotada por Dilma, pelo menos no que se refere à votação de uma resolução na ONU sobre o apedrejamento de mulheres no Irã. O encontro de Shirin e Dilma ainda não está confirmado, mas, se ocorrer, representará um revés importante para Ahmadinejad.

A reunião ainda marcaria uma mudança de imagem da diplomacia brasileira em relação às vítimas de abusos dos direitos humanos pelo mundo. A seguir, leia os principais trechos da entrevista:

Qual mensagem a sra. gostaria de passar a Dilma Rousseff?

Ouvi que ela disse que defenderia os direitos humanos das iranianas, mas é fácil dizer. O que eu vou cobrar é que ela tome ações reais para nos proteger. Em fevereiro, irei ao Brasil e aproveitarei para lançar um desafio real à nova presidente.

Como a sra. avalia a posição do Brasil em relação ao Irã?

O Brasil presta-se a uma posição lamentável.

Porque?

Lula dizia ser um homem que representava os trabalhadores. Mas será que ele não entende que um trabalhador brasileiro e um trabalhador iraniano têm os mesmos direitos? O que ele fez foi uma traição. Lula humilhou o povo iraniano ao ir até Teerã e apenas se reunir com Ahmadinejad.

Mas defender o povo iraniano não seria uma responsabilidade dos líderes iranianos?

Não. É uma responsabilidade de todos os líderes que se dizem líderes. Imploramos a Lula, antes de sua viagem ao Irã, que não falasse apenas do dossiê nuclear. Mas ele não fez nada disso. Viajou até o Irã, fechou um acordo nuclear, saiu em fotos em todo o mundo como um grande líder e ignorou o povo iraniano. Que espécie de líder dos trabalhadores é esse?

A sra. acha que a presidente Dilma deve repetir uma viagem ao Irã?

Sim. Mas apenas se ela não repetir o que Lula fez. Se ela diz estar preocupada com a situação das mulheres no Irã, que visite essas mulheres presas por terem apenas defendido seus direitos. Se ela for ao Irã apenas para fazer negócios e tratar do tema nuclear, acho que pode ficar em casa mesmo.

Mas abrir canais de diálogo com o Ocidente seria uma das metas do Brasil, evitando o isolamento do Irã.

Perfeitamente. Não queremos o isolamento. Mas não queremos que o governo iraniano use um líder de prestígio como Lula para fazer propaganda de si mesmo.

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