Cocaína faz check-in nos aeroportos venezuelanos

Traficantes têm preferido transportar droga em voos comerciais, talvez para evitar que sua carga se perca em acidentes de pequenos aviões

NICK, MIROFF, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2014 | 02h03

O principal aeroporto internacional da Venezuela, Maiquetía, ganhou recentemente a má reputação de ter longas filas, passageiros perdidos e terminais sujos. Em julho, a população se queixou quando a administração do terminal começou a cobrar uma taxa pelo ar puro do novo sistema. Agora, algo realmente sujo ocorre em Maiquetía: a cocaína passa pelo aeroporto em quantidades tão grandes que, aparentemente, a apreensão de 4 malas com 168 quilos da droga em 16 de abril não foi revelada ao público.

De acordo com o jornal venezuelano El Nacional, a cocaína foi encontrada depois que um avião operado pela Laser Airlines foi obrigado a aterrissar cinco minutos depois de decolar na República Dominicana. O jato funcionava bem, mas uma das rodas do trem de pouso ficou emperrada, obrigando o piloto dar meia volta. Não foi um problema técnico: algum gênio do tráfico tinha colocado uma mala cheia de cocaína no espaço do trem de pouso, segundo fontes do jornal. Entre os sete detidos está um tenente da Guarda Nacional Bolivariana, encarregada da segurança nos aeroportos.

Para os padrões sul-americanos, 168 quilos de cocaína não é uma apreensão memorável. Mas ainda estamos falando de muita droga - e a possibilidade de traficantes colocarem a vida dos passageiros em perigo ao pôr sua carga no trem de pouso parece informação relevante. Como destaca o El Nacional, o episódio também nos leva a indagar a respeito de outras apreensões que não são reveladas, seja pelo desejo do governo de Nicolas Maduro de ocultar as más notícias ou de proteger funcionários corruptos envolvidos com o tráfico. O departamento de combate às drogas da polícia venezuelana não atua mais no aeroporto e a Guarda Nacional Bolivariana, que o substituiu, tem um histórico de envolvimento no negócio das drogas.

Vários funcionários do governo venezuelano já foram presos dentro e fora da Venezuela em decorrência de apreensões de cocaína. O país não produz a droga, que entra pela fronteira com a Colômbia, em parte com a ajuda das forças de segurança venezuelanas, segundo funcionários da agência americana de combate às drogas.

Mapas mostrando a trajetória de voo de aeronaves suspeitas de transportar drogas (aviões não identificados circulando em baixa altitude, à noite) documentaram uma importante mudança nos anos mais recentes. Os voos não partem mais da Colômbia. Agora, sua partida é quase sempre de áreas rurais do lado venezuelano da fronteira. Dali, eles se espalham.

Os sobrecarregados voos dos traficantes são conhecidamente perigosos e dados a acidentes. Agora, alguns traficantes parecem ter concluído que é mais seguro mandar as drogas escondidas em voos comerciais. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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