Colaboração indireta com os EUA

Apesar de relações tensas, Caracas pode ter dado informações-chave sobre o caso do ex-chefe antidrogas da Venezuela

Nicholas Casey e William Neumam, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2015 | 06h43

Durante cinco anos os investigadores americanos suspeitavam que Néstor Reverol, ex-chefe antidrogas da Venezuela, trabalhava como agente duplo. Mesmo quando publicamente ele alardeava suas façanhas contra grupos criminosos, os traficantes colombianos contavam aos investigadores uma história diferente: que Reverol recebia suborno de grupos traficantes que deveria combater.

Agora, os promotores americanos devem formalizar suas acusações contra ele, acusações explosivas que as autoridades venezuelanas rejeitam afirmando que os EUA estão mentindo para minar seu governo de esquerda. Mas numa reviravolta inesperada, informações-chave do caso podem ter vindo do próprio governo venezuelano.

Em meio às disputas entre Washington e Caracas, vários traficantes colombianos foram capturados na Venezuela e extraditados para a Colômbia. Mas, em vez de serem julgados ali, alguns foram extraditados novamente, desta vez para os EUA, onde se tornaram informantes, fornecendo informações sobre parceiros venezuelanos.

As extradições serviram para coletar informações para o indiciamento de Reverol, general que agora comanda a Guarda Nacional do país e, de acordo com os promotores americanos, integraria a folha de pagamento dos cartéis de droga.

Reverol é o mais recente nome ligado a acusações de corrupção e narcotráfico na Venezuela, que pioraram ainda mais a relação entre os EUA e esse país.

Um ex-agente da inteligência venezuelana também é procurado nos EUA, acusado de receber dinheiro de traficantes colombianos, além de vários ex-membros da polícia. Diosdado Cabello, presidente de saída da Assembleia Nacional venezuelana, é investigado num processo de lavagem de dinheiro.

Em novembro, promotores federais acusaram dois sobrinhos de Cilia Flores, mulher do presidente Nicolás Maduro, de conluio no transporte de 800 quilos de cocaína para os EUA.

Nos últimos anos, segundo investigadores americanos, a Venezuela se transformou num centro global de drogas, especialmente cocaína, destinadas aos EUA. Traficantes colombianos há muito se beneficiam de uma fronteira facilmente penetrável entre os dois países e do péssimo controle policial.

Mas muitos dos cartéis colombianos que entraram na Venezuela não dispõem dos contatos locais que possuem do outro lado da fronteira. É aí que entra Reverol, diretor da unidade antidrogas venezuelana.

“A maneira de eles se infiltrarem na Venezuela foi começar a subornar as autoridades”, disse uma pessoa familiarizada com o caso. Em troca de propina, Reverol repetidamente suspendeu investigações, dificultou inquéritos envolvendo traficantes e avisou-os de locais onde a polícia estava operando.

As autoridades venezuelanas não confirmaram notícias de que ele havia sido indiciado, mas iniciaram uma campanha defendendo o general por meio de postagens no Twitter, incluindo algumas enfatizando suas ações para prender ou obstruir as atividades dos traficantes.

Prisões de diversos suspeitos de tráfico colombianos que operam na Venezuela ocorreram quando Reverol chefiava a agência antidrogas venezuelana. Em alguns casos, Venezuela e EUA chegaram a trabalhar juntos.

Em 2012, Diego Pérez Henao, líder da gangue de droga Rastrojos, foi preso na Venezuela e extraditado para a Colômbia, de onde foi enviado para os EUA. Também em 2012 Luis Enrique Calle Serna, conhecido como “Comba”, outro membro importante da gangue, negociou sua rendição com as autoridades americanas no Panamá. “Comba, que, com seus homens, trabalhava intensamente na Venezuela, rendeu-se e fechou um acordo com a Justiça americana”, disse Jeremy McDermott, codiretor da organização de pesquisa InSight Crime.

Segundo McDermott, um grupo de traficantes colombianos operando na Venezuela foi capturado e extraditado para os EUA, onde teria revelado segredos para os investigadores.

As relações entre Venezuela e EUA se degradaram depois de Hugo Chávez ser eleito presidente em 1998 e em particular após um golpe fracassado em 2002 contra ele que contou com o apoio tácito do governo de George W. Bush. Chávez suspendeu a cooperação com a agência antidrogas americana em 2005, acusando-a de espionagem e de atuar como traficante de drogas. Chávez expulsou o embaixador americano na Venezuela em 2008 e acusou os EUA de apoiarem um grupo de conspiradores que tramaram o golpe contra seu governo. E frequentemente acusava Washington de conspirar contra ele e apoiar complôs para matá-lo.

Tentativas para restaurar as relações fracassaram. A última ocorreu este ano quando o secretário de Estado, John Kerry, enviou um assessor, Thomas Shannon, para se reunir com as autoridades venezuelanas, incluindo Maduro. As conversações não resultaram em mudanças importantes, mas a situação parece ter esfriado.

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) operam extensivamente ao longo da fronteira e receberam ajuda do governo Chávez. Os EUA acusaram membros do alto escalão do governo venezuelano de participar das operações de tráfico da guerrilha Farc.

Durante muitos anos os investigadores achavam que membros da polícia e do Exército venezuelano constavam da folha de pagamento dos traficantes colombianos. “Ocorreu uma mudança no papel dos venezuelanos. Eles deixaram de ser facilitadores e se tornaram traficantes”, afirmou McDermott. “Hoje, acredita-se que os venezuelanos compram e vendem sua própria droga.”

Ele disse ainda que uma grande expansão das plantações de coca deve resultar num enorme aumento da quantidade droga que entra na Venezuela. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Durante cinco anos os investigadores americanos suspeitavam que Néstor Reverol, ex-chefe antidrogas da Venezuela, trabalhava como agente duplo. Mesmo quando publicamente ele alardeava suas façanhas contra grupos criminosos, os traficantes colombianos contavam aos investigadores uma história diferente: que Reverol recebia suborno de grupos traficantes que deveria combater.

Agora, os promotores americanos devem formalizar suas acusações contra ele, acusações explosivas que as autoridades venezuelanas rejeitam afirmando que os EUA estão mentindo para minar seu governo de esquerda. Mas numa reviravolta inesperada, informações-chave do caso podem ter vindo do próprio governo venezuelano.

Em meio às disputas entre Washington e Caracas, vários traficantes colombianos foram capturados na Venezuela e extraditados para a Colômbia. Mas, em vez de serem julgados ali, alguns foram extraditados novamente, desta vez para os EUA, onde se tornaram informantes, fornecendo informações sobre parceiros venezuelanos.

As extradições serviram para coletar informações para o indiciamento de Reverol, general que agora comanda a Guarda Nacional do país e, de acordo com os promotores americanos, integraria a folha de pagamento dos cartéis de droga.

Reverol é o mais recente nome ligado a acusações de corrupção e narcotráfico na Venezuela, que pioraram ainda mais a relação entre os EUA e esse país.

Um ex-agente da inteligência venezuelana também é procurado nos EUA, acusado de receber dinheiro de traficantes colombianos, além de vários ex-membros da polícia. Diosdado Cabello, presidente de saída da Assembleia Nacional venezuelana, é investigado num processo de lavagem de dinheiro.

Em novembro, promotores federais acusaram dois sobrinhos de Cilia Flores, mulher do presidente Nicolás Maduro, de conluio no transporte de 800 quilos de cocaína para os EUA.

Nos últimos anos, segundo investigadores americanos, a Venezuela se transformou num centro global de drogas, especialmente cocaína, destinadas aos EUA. Traficantes colombianos há muito se beneficiam de uma fronteira facilmente penetrável entre os dois países e do péssimo controle policial.

Mas muitos dos cartéis colombianos que entraram na Venezuela não dispõem dos contatos locais que possuem do outro lado da fronteira. É aí que entra Reverol, diretor da unidade antidrogas venezuelana.

“A maneira de eles se infiltrarem na Venezuela foi começar a subornar as autoridades”, disse uma pessoa familiarizada com o caso. Em troca de propina, Reverol repetidamente suspendeu investigações, dificultou inquéritos envolvendo traficantes e avisou-os de locais onde a polícia estava operando.

As autoridades venezuelanas não confirmaram notícias de que ele havia sido indiciado, mas iniciaram uma campanha defendendo o general por meio de postagens no Twitter, incluindo algumas enfatizando suas ações para prender ou obstruir as atividades dos traficantes.

Prisões de diversos suspeitos de tráfico colombianos que operam na Venezuela ocorreram quando Reverol chefiava a agência antidrogas venezuelana. Em alguns casos, Venezuela e EUA chegaram a trabalhar juntos.

Em 2012, Diego Pérez Henao, líder da gangue de droga Rastrojos, foi preso na Venezuela e extraditado para a Colômbia, de onde foi enviado para os EUA. Também em 2012 Luis Enrique Calle Serna, conhecido como “Comba”, outro membro importante da gangue, negociou sua rendição com as autoridades americanas no Panamá. “Comba, que, com seus homens, trabalhava intensamente na Venezuela, rendeu-se e fechou um acordo com a Justiça americana”, disse Jeremy McDermott, codiretor da organização de pesquisa InSight Crime.

Segundo McDermott, um grupo de traficantes colombianos operando na Venezuela foi capturado e extraditado para os EUA, onde teria revelado segredos para os investigadores.

As relações entre Venezuela e EUA se degradaram depois de Hugo Chávez ser eleito presidente em 1998 e em particular após um golpe fracassado em 2002 contra ele que contou com o apoio tácito do governo de George W. Bush. Chávez suspendeu a cooperação com a agência antidrogas americana em 2005, acusando-a de espionagem e de atuar como traficante de drogas. Chávez expulsou o embaixador americano na Venezuela em 2008 e acusou os EUA de apoiarem um grupo de conspiradores que tramaram o golpe contra seu governo. E frequentemente acusava Washington de conspirar contra ele e apoiar complôs para matá-lo.

Tentativas para restaurar as relações fracassaram. A última ocorreu este ano quando o secretário de Estado, John Kerry, enviou um assessor, Thomas Shannon, para se reunir com as autoridades venezuelanas, incluindo Maduro. As conversações não resultaram em mudanças importantes, mas a situação parece ter esfriado.

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) operam extensivamente ao longo da fronteira e receberam ajuda do governo Chávez. Os EUA acusaram membros do alto escalão do governo venezuelano de participar das operações de tráfico da guerrilha Farc.

Durante muitos anos os investigadores achavam que membros da polícia e do Exército venezuelano constavam da folha de pagamento dos traficantes colombianos. “Ocorreu uma mudança no papel dos venezuelanos. Eles deixaram de ser facilitadores e se tornaram traficantes”, afirmou McDermott. “Hoje, acredita-se que os venezuelanos compram e vendem sua própria droga.”

Ele disse ainda que uma grande expansão das plantações de coca deve resultar num enorme aumento da quantidade droga que entra na Venezuela. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

NICHOLAS CASEY E WILLIAM NEUMAM SÃO JORNALISTAS DO THE NEW YORK TIMES

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