Colapso de ditador traria à tona divisões históricas

Analistas alertam que combate na Líbia ameaça fragmentar o país nas regiões da Tripolitana, [br]Cirenaica e Fezzan

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2011 | 00h00

Os levantes na Líbia podem fragmentar o país e levar ao renascimento da Tripolitana, Cirenaica e Fezzan. Eram essas as três províncias otomanas que foram unificadas na independência do país e deram lugar ao Estado líbio. Com história e interesses diferentes, as regiões se posicionam em lados antagônicos na atual crise líbia.

Os levantes contra o regime de Muamar Kadafi começaram em Benghazi, na Cirenaica (Líbia do Leste, na nomenclatura oficial). Maior região líbia em extensão, possui petróleo e uma composição étnica similar à do Egito. Nas zonas fronteiriças, as tribos cruzam de um lado para o outro como se vivessem sob as leis de um mesmo Estado.

Já a mais populosa Tripolitana (Líbia do Oeste) se localiza na costa ocidental do país. A influência de Kadafi é maior na região, especialmente entre o funcionalismo público. Mais fértil, sempre teve ligação maior com outros países do Norte da África, como a Tunísia, e a Europa - os líbios foram colonizados pelos italianos. Fezzan (Líbia do Sul), com uma população nômade que equivale a 5% do total, praticamente tem uma vida independente do regime, como se fossem um povo do deserto.

Com a intensificação dos protestos, Kadafi tem concentrado forças na defesa da Tripolitana. A manutenção de seu poder na Cirenaica seria altamente improvável.

"A população líbia se divide ao meio. A base de poder de Kadafi está no extremo oeste, em Trípoli. A oposição se concentra em Benghazi, no leste. Entre as duas regiões há 600 quilômetros de deserto vazio", diz análise da consultoria de risco político Stratfor.

"Isso racha o país em duas facções políticas, duas bases de produção de energia e duas infraestruturas de exploração", completa a análise de conjuntura.

Divisões sociais. As regiões líbias tampouco possuem uma identidade comum enraizada. Apesar de terem sido parte dos impérios grego, romano, bizantino e otomano, além de ocupações britânicas, francesas e italianas, sempre tiveram existências distintas, sem haver conexões efetivas entre as diferentes regiões.

Demorava semanas ou mesmo meses para ir por caravana da Tripolitana para Fezzan. Ex-colônia italiana, a Líbia teve papel central na luta pelo controle do Norte da África durante a Segunda Guerra.

"A história de Tripolitana, Cirenaica e Fezzan é de separação", diz o historiador Dirk Vanderwalle em seu livro A History of Modern Libya (História da Líbia moderna). Segundo ele, professor da Universidade Dartmouth, "as distâncias físicas sempre contribuíram para essa divisão entre as regiões".

Relatório da Biblioteca do Congresso dos EUA destaca também as diferenças étnicas. "Cirenaica foi arabizada mais cedo do que a Tripolitana e tribos beduínas a dominaram. Já os nativos berberes ainda existem na Tripolitana. Fezzan é composta por grupos étnicos minoritários", afirma o relatório.

As diferenças étnicas teriam papel importante na dinâmica política da Líbia, mas não representariam clivagens profundas como no Iraque - onde a disputa por poder atualmente gira em torno da divisão entre xiitas, sunitas e curdos.

Ao contrário do Iêmen e de Bahrein, que também enfrentam levantes, a Líbia não possui problemas com religião. Quase a totalidade da população é muçulmana sunita.

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