EFE/EPA/STRINGER
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Colapso do Afeganistão: 4 mil afegãos fogem para o Irã todos os dias

Desde que o Taleban voltou ao poder, em agosto, população sofre com falta de trabalho, fome generalizada e falta de perspectivas; Em quatro meses, mais de 1 milhão fugiram

Christina Goldbaum e Yaqoob Akbary, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2022 | 15h00

ZARANJ, Afeganistão - Do seu esconderijo no deserto, os refugiados e imigrantes podiam apenas distinguir as luzes brancas da fronteira iraniana brilhando no horizonte. Muitos gastaram suas economias em alimentos e pediram dinheiro aos parentes, na esperança de escapar do colapso econômico do Afeganistão. Agora, na fronteira, eles viram a tábua de salvação: trabalho, dinheiro, comida.

“Não há outra opção para mim; não posso voltar”, disse Najaf Akhlaqi, 26 anos, que se põe de pé quando os contrabandistas de pessoas mandam o grupo correr.

Desde que os EUA retiraram suas tropas e o Taleban tomou o poder, em agosto passado, o Afeganistão mergulhou em uma crise econômica que levou milhões de pessoas ao limite. As fontes de renda desapareceram, a fome tornou-se generalizada e a ajuda extremamente necessária foi frustrada por sanções ocidentais contra o Taleban.

Mais da metade da população enfrenta “níveis extremos” de fome, disse António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, no mês passado. “Para os afegãos, a vida cotidiana se tornou um inferno congelado".

Agora, sem trégua imediata à vista, centenas de milhares de pessoas fugiram para os países vizinhos. De outubro até o fim de janeiro, mais de 1 milhão de afegãos - apenas no Sudoeste do país - partiram para uma das duas principais rotas para o Irã, segundo pesquisadores. Organizações de ajuda humanitária estimam que cerca de 4 mil a 5 mil pessoas cruzem para o Irã todos os dias.

Embora muitos optem por sair por causa da crise econômica imediata, a perspectiva de um governo taleban de longo prazo - incluindo restrições às mulheres e medo de represálias - só aumentou sua urgência.

“Há um aumento exponencial no número de pessoas que partem do Afeganistão por essa rota, principalmente considerando o quão desafiante é essa jornada no inverno [do Hemisfério Norte]”, diz David Mansfield, pesquisador da migração afegã.

De acordo com as estimativas de Mansfield, o número de afegãos indo para o Paquistão e para o Irã em janeiro quadruplicou, na comparação com o mesmo período do ano passado.

O êxodo acionou alarmes em toda a região e na Europa. Teme-se uma repetição da crise migratória de 2015, quando mais de 1 milhão de pessoas, a maioria sírios, buscaram asilo na Europa, desencadeando uma reação populista. Muitos temem que, nos próximos meses, com o aumento das temperaturas e as rotas cobertas de neve tornando-se mais fáceis de percorrer, um dilúvio de afegãos possa chegar às fronteiras da União Europeia.

Determinada a conter os imigrantes e refugiados na região, no outono passado a UE prometeu mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,29 bilhões) em ajuda humanitária para o Afeganistão e países vizinhos que abrigam afegãos.

“Precisamos de novos acordos e compromissos para poder ajudar uma população civil extremamente vulnerável”, disse Jonas Gahr Store, primeiro-ministro norueguês, em comunicado na reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre o Afeganistão no mês passado. “Devemos fazer o que pudermos para evitar outra crise migratória e outra fonte de instabilidade na região e além.”

Mas os doadores ocidentais ainda estão lutando com questões complicadas sobre como cumprir suas obrigações humanitárias para com os afegãos comuns sem apoiar o novo governo taleban.

Nos últimos meses, as autoridades do Taleban apelaram às autoridades ocidentais que suspendam sanções econômicas, fazendo algumas promessas sobre educação para meninas e acatando outras condições estabelecidas pela comunidade internacional para a concessão de ajuda. Desde agosto, o auxílio internacional que financiava cerca de 80% do Orçamento afegão foi subitamente interrompido, e os EUA congelaram US$ 9,5 bilhões (R$ 50,2 bilhões) em ativos do Banco Central do Afeganistão, o equivalente à metade do PIB do país em 2020.

Mas, a menos que os doadores ocidentais ajam mais rapidamente para liberar a economia e reativar o sistema financeiro do país asiático, os afegãos desesperados por trabalho provavelmente continuarão a procurá-lo no exterior.

Asilo

Agachado entre o grupo de imigrantes e refugiados no deserto, Akhlaqi se prepara para uma corrida desesperada de um quilômetro e meio de distância, entre trincheiras de terra revolvida, um muro de 4,5 metros de altura coberto com arame farpado e um vasto trecho de matagal cheio de forças de segurança iranianas. No mês passado, ele cruzou a fronteira 19 vezes - a cada vez, foi preso e devolvido.

Policial do antigo governo, Akhlaqi se escondeu nas casas de parentes por medo de represálias do Taleban. À medida que as poucas economias se esgotavam, mudou-se de cidade em cidade em busca de um novo emprego. Mas o trabalho era escasso. Então, no início de novembro, ele se juntou a contrabandistas de pessoas na província de Nimruz determinado a chegar ao Irã. “Tenho medo dos guardas de fronteira iranianos”, lamentou. “Mas não posso ficar aqui.”

Mesmo antes da tomada do Taleban, os afegãos representavam o segundo maior número de pedidos de asilo na Europa, depois da Síria, e uma das maiores populações de refugiados e solicitantes de asilo do mundo - cerca de 3 milhões de pessoas -, a maioria vivendo no Irã e no Paquistão.

Muitos fugiram por Nimruz, um canto remoto do Sudoeste do Afeganistão encravado entre as fronteiras do Irã e do Paquistão. Em sua capital, Zaranj, afegãos de todo o país se aglomeram em hotéis administrados por contrabandistas de pessoas que se alinham na estrada principal e se reúnem em torno das barracas de kebab dos vendedores ambulantes, trocando histórias sobre a extenuante jornada pela frente.

À medida que a crise econômica piorou, autoridades locais do Taleban tentaram lucrar com o êxodo regulando o lucrativo negócio de contrabando de pessoas. Em um estacionamento no centro da cidade, um funcionário do Taleban sentado em um pequeno carro prateado cobra um novo imposto - mil afegãos, ou cerca de US$ 10 - de cada carro que vai para o Paquistão.

No início, as autoridades do Taleban também cobraram impostos sobre a outra principal rota de imigrantes da cidade, uma jornada escoltada por contrabandistas pelo deserto e pelo muro da fronteira diretamente para o Irã. Mas depois de acusações, em setembro, de que um contrabandista havia estuprado uma menina, o Taleban mudou de rumo, reprimindo essa rota deserta. Ainda assim, esses esforços pouco fizeram para deter os contrabandistas.

Acelerando por uma estrada deserta por volta da meia-noite, o contrabandista S., que preferiu se identificar apenas com a inicial por causa da natureza ilegal de seu trabalho, tocava música pop árabe em seu aparelho de som. Ao se aproximar de uma propriedade, ele desligou as luzes traseiras para evitar ser seguido.

Mover pessoas todas as noites requer uma dança delicada: primeiro, ele faz um acordo com um guarda de fronteira iraniano de baixo escalão para permitir a passagem de um certo número de pessoas. Então, ele diz a outros contrabandistas para trazerem imigrantes e refugiados de seu hotel para um esconderijo no deserto e coordena com seu parceiro de negócios para encontrar o grupo do outro lado da fronteira. Quando o sol se põe, ele e outros dirigem por horas, vasculhando a área e - assim que a rota estiver livre - levando os estrangeiros do esconderijo até a fronteira.

“Não temos uma casa. Nossa casa é nosso carro, a noite toda dirigindo perto da fronteira. Um dia minha mulher vai me expulsar de casa”, disse S., explodindo em gargalhadas.

Atravessar a fronteira é apenas o primeiro obstáculo que os afegãos devem superar. Desde a tomada do poder, tanto o Paquistão quanto o Irã intensificaram as deportações, alertando que suas economias frágeis não conseguem lidar com o influxo de migrantes e refugiados.

Nos últimos cinco meses de 2021, mais de 500 mil que entraram nesses países de forma irregular foram deportados ou retornaram voluntariamente ao Afeganistão, provavelmente temendo a deportação, segundo a Organização Internacional para as Migrações da ONU.

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