Colapso imobiliário cria cidades e aeroportos fantasmas no país

Em Seseña, entre Toledo e Madri, apenas 60 apartamentos dos 16 mil construídos continuam ocupados após a crise

SESEÑA, ESPANHA, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h04

A cidade de Seseña tinha tudo para ser um oásis de paz para famílias em busca de um lugar calmo para criar seus filhos. Em meio a oliveiras, a Rua Velásquez testemunhou rapidamente a construção de 16 mil apartamentos para abrigar até 40 mil habitantes. Eram os tempos do boom imobiliário e do crédito fácil. Hoje, com a crise, apenas 60 desses imóveis estão ocupados.

O estrago foi grande. A recessão aumentou para 5 milhões o número de desempregados, que não puderam mais pagar suas hipotecas. O setor da construção civil demitiu 1,4 milhão de trabalhadores em dois anos, 60% de toda a mão de obra que trabalhava em canteiros de obras. As empreendedoras acumulam uma dívida de 1 bilhão de euros e não há previsão para que voltem a lucrar.

Segundo dados oficiais, 700 mil apartamentos e casas estão hoje vazios pelo país, seja porque não conseguiram ser vendidos ou porque as famílias tiveram de devolvê-los aos bancos por terem perdido renda.

Por toda a Espanha, esqueletos, obras abandonadas, estradas inconclusas, pontes feitas apenas pela metade e até aeroportos desertos são símbolos da crise. Esses monumentos à falência de todo um sistema revelam os sintomas de um modelo de crescimento esgotado.

Entre 1995 e 2005, a Espanha construiu mais casas e apartamentos do que França, Itália e Alemanha juntas. Empresários modestos levantaram impérios, como Florentino Pérez, hoje presidente do Real Madrid.

Prefeituras e governos locais passaram a depender desses empreendimentos para financiarem suas próprias contas. Com o colapso do mercado imobiliário, faliram. Em Seseña, tudo isso é explícito. Os prédios estão fechados e as ruas, vazias.

Outra evidência da euforia dos últimos dez anos foi a construção de um aeroporto em Ciudad Real, que custou aos cofres públicos 1,5 bilhão de euros. As contas apontavam há dez anos que a renda dos espanhóis e a atratividade de Madri exigiam ampliações dos aeroportos. Barajas, o principal terminal que serve a capital, estava no limite. Os empreendedores convenceram prefeituras próximas a Madri a financiar o projeto.

Hoje, o aeroporto é um elefante branco. A demanda por viagens em uma sociedade que tem a metade dos jovens desempregados caiu e as companhias aéreas não o utilizam.

O Estado foi autorizado a entrar no edifício do aeroporto, com a condição de que não fizesse fotos. Dentro, um vazio absoluto. Portões de embarques desativados, locais onde estariam lojas e cafés abandonados e apenas alguns funcionários. "Somos pagos para cuidar dos fantasmas", comentou Angelica, uma faxineira equatoriana que trabalha no local. / J. C.

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