REUTERS/Christian Veron
REUTERS/Christian Veron
Imagem Lourival Sant'Anna
Colunista
Lourival Sant'Anna
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Colapso venezuelano

Brasil precisa elaborar com urgência um plano de contingência para uma possível crise humanitária de grandes proporções na Venezuela

LOURIVAL SANT’ANNA*, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2016 | 05h00

O Brasil precisa elaborar com urgência um plano de contingência para uma possível crise humanitária de grandes proporções na Venezuela, associada ou não a um conflito armado. A resposta demandará um nível de coordenação sem precedentes, bem maior, por exemplo, do que a realização da Copa e da Olimpíada – eventos de data marcada com ampla antecedência. Envolve, num primeiro momento, os governos federal, de Roraima e Amazonas, ao menos dez municípios em cada um desses Estados, as Forças Armadas, a Polícia Federal, as polícias estaduais, a Defesa Civil, a Vigilância Epidemiológica, Conselhos Tutelares e demais órgãos ligados à saúde e à assistência social. 

A situação na Venezuela entrou em nova fase, a partir da decisão do Conselho Nacional Eleitoral, controlado pelo governo, de impedir a realização neste ano do referendo revogatório do mandato do presidente Nicolás Maduro. No ano que vem, o mandato presidencial terá ultrapassado a metade e, mesmo que os eleitores votem pela saída do presidente, como preveem as pesquisas, não se realizarão novas eleições. O presidente será substituído pelo seu vice, por ele nomeado – atualmente, Aristóbulo Istúriz, tão chavista quanto Maduro. A oposição não aceita essa manobra. 

A Assembleia Nacional, dominada pela oposição, abriu um julgamento contra Maduro. Mas o presidente é protegido pelo Tribunal Supremo de Justiça, controlado pelos chavistas, que anula as decisões da Assembleia. Centenas de milhares de pessoas se manifestaram na quarta-feira nas principais cidades do país a favor do referendo neste ano e da saída do presidente. “Se nos roubam o direito de votar, passamos a outra etapa na Venezuela”, sentenciou o principal líder da oposição, Henrique Capriles. 

Diante da convocação de greve geral para a última sexta-feira, Diosdado Cabello, vice-presidente do governista Partido Socialista Unido da Venezuela, afirmou: “Conversei sobre isso com o presidente. Empresa que pare, empresa que será tomada pelos trabalhadores e pelas Forças Armadas.” 

Na quinta-feira, a oposição pretende realizar nova marcha, dessa vez até o Palácio de Miraflores, para supostamente entregar a Maduro o comunicado de sua destituição pelo Parlamento. Desde a tentativa de golpe contra Hugo Chávez, em abril de 2002, as cercanias do palácio se tornaram domínio dos chavistas. Eu estava lá naquela época, e em muitos outros momentos conturbados na Venezuela, e presenciei a ação de milicianos, que chegam em motos, com walkie-talkies, cassetetes e pistolas, para transformar manifestações pacíficas em distúrbios violentos, e assim justificar a repressão pela Guarda Nacional Bolivariana. 

Igualmente explosivo é o conflito entre forças policiais municipais e estaduais, controladas pela oposição, e as forças de segurança federais. As Forças Armadas “Bolivarianas” foram politizadas por Chávez, que expurgou os oficiais que não lhe pareciam leais. 

Premida pela falta de moeda forte, a Venezuela tem três taxas de câmbio. O governo decide quem pode transacionar com o dólar a 10 bolívares (taxa administrada) e vender a 658 (flutuante) ou a 1.417 (paralelo). Essas faixas geram enormes lucros para os oficiais, que foram colocados pelo governo nos negócios de importação e distribuição. Assim, as Forças Armadas têm motivos políticos e econômicos para impedir a alternância de poder. Nos bairros pobres, a distribuição está a cargo de militantes chavistas, e muitos moradores se queixam de não receber as cestas básicas por não serem governistas.

O colapso do abastecimento, do emprego e da renda só não produziu uma explosão social e uma fuga em massa dos venezuelanos para os países vizinhos porque deu origem a uma nova ocupação que permite a sobrevivência dos pobres: os bachaqueros (o nome vem da formiga tanajura, que carrega carga), que pegam imensas filas ou atuam no contrabando, para revender os produtos para quem tem algum dinheiro. 

Conforme a crise se agrava, com o esgotamento das reservas cambiais, essa válvula de escape está se fechando. Daí a entrada de 30 mil venezuelanos em Roraima, desde o início do ano passado. Conforme o Estado mostrou em reportagem há duas semanas, muitos dormem nas ruas de Pacaraima, na fronteira, e da capital, Boa Vista, não encontrando trabalho e sobrecarregando serviços públicos, já em colapso pelo corte de verbas federais.

Essa onda de migrantes tende a aumentar. Pode se transformar em avalanche humana em um cenário, muito provável, de aumento das manifestações, violenta repressão e confrontos com o governo, conduzindo ou não a um conflito armado em grande escala. O Brasil não está preparado para isso. Improvisar seria desastroso. Basta ver a Europa.

*LOURIVAL SANT’ANNA ESCREVE AOS DOMINGOS

 

Mais conteúdo sobre:
Venezuela

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.