Thony Belizaire
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Cólera chega à capital do Haiti e ameaça milhares de desabrigados

Em alerta. Doença matou pelo menos 250 pessoas nos últimos cinco dias e 3,5 mil haitianos estão internados com suspeita da enfermidade; condição precária dos acampamentos montados desde o terremoto de janeiro em Porto Príncipe preocupa médicos

Reuters e AFP, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2010 | 00h00

PORTO PRÍNCIPE

Um surto de cólera que matou mais de 250 pessoas nos últimos cinco dias no Haiti chegou ontem à capital, Porto Príncipe, onde milhares de desabrigados vivem sem água e esgoto desde o terremoto que matou 250 mil pessoas, em janeiro. A Organização das Nações Unidas (ONU) informou que cinco pessoas morreram depois de chegar à cidade já infectadas. Pelo menos 3,5 mil haitianos estão internados com suspeita da enfermidade.

 

"Dos cinco casos de cólera confirmados de cólera em Porto Príncipe, quatro eram de pessoas originárias de Artibonite (no norte do país) e uma do Departamento Centro", informou o escritório de coordenação de assuntos humanitários das Nações Unidas, em Genebra, na Suíça. "Esses casos não constituem uma propagação da doença, já que não se trata de um novo foco (de infestação). A identificação desses cinco casos na capital, ainda que preocupante, demonstra que o sistema de vigilância da epidemia funciona."

Nos últimos dias, entretanto, as autoridades locais disseram que o maior perigo para uma epidemia era que o surto chegasse à capital haitiana.

 

 

O diretor-geral do Ministério de Saúde Pública e População, Gabriel Timothée, questionou a informação da ONU, afirmando que a ONG Médicos Sem Fronteiras constatou os casos da doença em Porto Príncipe apenas por observações clínicas. "É muito cedo para dizer que se tratam de casos de cólera porque não foi feita uma verificação científica", declarou o ministro.

Timothée disse ainda que das 3.115 pessoas internadas com suspeita da enfermidade, 2.754 estão em Artibonite, região cujo rio de mesmo nome é considerado a principal fonte da infestação. Milhares de desabrigados pelo terremoto de janeiro ainda vivem em acampamentos, principalmente nos arredores de Porto Príncipe, em péssimas condições sanitárias - o que facilita a propagação da bactéria causadora da doença.

O diretor regional de saúde Dieula Louissaint teme que a população também se contagie a nos hospitais do país. "Não podemos continuar tratando a cólera com estrutura para outros tipos de enfermidades. Precisamos de centros adequados para cuidados específicos." Os centros de saúde da cidade de Saint Marc, no norte do país, estão lotados por causa das internações por suspeita de cólera.

A doença já atingiu o sistema carcerário. Até ontem, mais de 50 presos de uma penitenciária no centro do país haviam contraído cólera. Três morreram.

 

 

 

 

 

 

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A situação no Haiti foi descrita como um "palco de catástrofe" pela candidata favorita à sucessão presidencial no país, Mirlande Manigat.

Santo Domingo. O governo dominicano prometeu proibir a partir de hoje a entrada de alimentos cozidos do Haiti. Os mercados binacionais abertos todas as segundas-feiras em quatro cidades da fronteira entre os países não serão suspensos, mas peixes e água haitianos terão o comércio vetado.

Ministros de saúde de países sul-americanos farão hoje uma videoconferência com a intenção de definir uma estratégia de ajuda ao Haiti. A reunião virtual será organizada pelo Equador, que ocupa atualmente a presidência da União Sul-americana de Nações. A Organização Pan-americana de Saúde fará hoje uma campanha de orientação sobre a forma de contaminação na fronteira entre o Haiti e a República Dominicana.

PARA ENTENDER

Prevenção depende de boa higiene

Causada pela bactéria Vibrio cholerae, a cólera é uma doença altamente contagiosa e causa intensa diarreia. Sem a reidratação imediata dos pacientes, é mortal. Os doentes chegam a perder até 10% do peso em quatro horas. Transmitida por água ou alimentos contaminados por fezes de enfermos, a bactéria se reproduz rapidamente ao chegar no intestino, causando o principal sintoma. Medidas de higiene como lavar as mãos e usar apenas água tratada ou fervida para beber e cozinhar são a maneira de prevenir-se. Sete epidemias de cólera ocorreram desde 1817. Na Índia, 15 milhões morreram, num dos surtos mais graves já registrados, em 1860. A doença reapareceu no Haiti depois que intensas chuvas atingiram o país.

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