Eduardo Munoz/Reuters
Eduardo Munoz/Reuters

Cólera esgota recursos de hospitais do Haiti

Centros de atendimento precários não conseguem ajudar população mais afetada pela doença e número de casos não para de crescer desde outubro

Stephane Jourdain, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2010 | 00h00

Uma mulher com cólera jaz sob uma barraca. Recebe soro intravenoso e as enfermeiras se asseguram de que ela beba água de tempos em tempos. Mas todos os esforços para reidratá-la são em vão: ela desmaia e, após 20 minutos de massagem cardíaca, os médicos a declaram morta.

"Já são quatro mortos hoje. Ela era jovem, tinha 30 anos. Há algo de errado neste serviço de emergência. Temos de fazer alguma coisa", disse o médico americano que cuidou dela, membro da ONG Partners in Health.

O Hospital Therese fica em Hinche, no centro do Haiti às margens do Rio Artibonite, onde foram detectados em outubro os primeiros casos de cólera.

Dois homens transportam um caixão, as galinhas correm sob as macas e logo entram na carcaça de um automóvel localizado entre duas barracas. Os quatro cadáveres foram depositados num local afastado, sobre a grama, a poucos metros de uma pilha de destroços em chamas.

Desde o início da epidemia, as mortes por cólera registradas no hospital já chegaram a 22. "A situação evolui de maneira negativa", inquieta-se o médico Prince-Pierre Sonçon, diretor do centro de saúde. "No início da epidemia recebíamos quatro casos por dia, depois 15, e em pouco tempo já eram 35 atendimentos diários. Esta manhã, chegamos a 60."

Sem acesso à internet, o hospital enfrenta dificuldades na hora de repassar um balanço do problema para as autoridades de Porto Príncipe.

"Precisamos de mais cloro, soro, dispositivos gota a gota, antibióticos. Temos reservas, mas a demanda é tamanha que precisaremos de mais suprimentos", prossegue Sonçon.

Os pacientes chegam um atrás do outro. Um casal traz uma criança de cuecas e descalça, visivelmente extenuada. Um jovem de calça jeans, camisa vermelha e tênis esportivo branco chega sozinho. Suas dores são evidentes e ele vomita enquanto espera para ser atendido.

"É muito difícil. As pessoas chegam em péssimo estado", desespera-se Atalante Saint-Preux, uma jovem enfermeira haitiana. "São nossos amigos, irmãos e irmãs, temos de ajudá-los", enfatiza ela.

Marie-Lourde Denis, de 37 anos, foi hospitalizada na quarta feira. "Senti cansaço e enjoo depois de lavar a roupa no Rio Guayamouco", explica. Ela melhorou e logo recebeu alta.

"Lavei o rosto com a água do rio. Acho que foi essa a causa do mal-estar", comenta. "Três dias depois tive diarreia, vômitos e dores de barriga muito fortes. Em seguida fui ao hospital, pois pensei que estivesse com cólera", acrescentou ela.

Em Hinche, os capacetes-azuis nepaleses, acusados por parte da população de ter trazido a cólera ao Haiti, onde a doença foi erradicada quase cem anos atrás, foram alvo de pedradas na última segunda-feira, durante um protesto de aproximadamente 400 manifestantes que deixou seis feridos entre os soldados da Força de Paz da ONU.

Desde então, a situação se acalmou, mas pode piorar esta semana por causa da eleição presidencial de domingo. "Tenho limitado ao máximo minhas saídas à rua", explica Antonin Danalet, suíço, professor de matemática na universidade local. "Desde segunda-feira, já fui insultado duas vezes na rua. As pessoas me chamam de forasteiro, me veem como alguém que pode lhes transmitir a cólera."

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