Cólera no Haiti começou em base da ONU, diz estudo

Relatório do governo francês confirma suspeita de que foco da doença teve início em acampamento nepalês

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2010 | 00h00

Contrariando a ONU, cientistas da França confirmam que o surto de cólera no Haiti surgiu dos acampamentos de tropas de paz das Nações Unidas no país caribenho. A conclusão faz parte de um estudo conduzido por especialistas franceses a pedido de Paris e entregue ontem à ONU.

A constatação é que o surto de fato teve início na base nepalesa das tropas internacionais que, por sua vez, são comandadas pelo Brasil. Por semanas, a ONU e a Organização Mundial da Saúde vinham afirmando que tinham feito testes e não havia nada que comprovasse as acusações.

A suspeita de que a cólera teria sido trazida pelos soldados causou violência e até mortes. Mesmo assim, a ONU preferiu insinuar que se tratava de uma estratégia de gangues e grupos de oposição para impedir que as eleições presidenciais ocorressem, há duas semanas.

Agora, o estudo feito concluiu o que muitos temiam na ONU. A doença de fato foi primeiro registrada na base nepalesa e dados científicos provariam isso. A rapidez da proliferação da doença a partir do centro do Haiti e o fato de que ela simplesmente não existia no país por mais de um século é o que levaram os investigadores a buscar explicações "externas".

Outra conclusão é a de que a água do Rio Artibonite foi contaminada depois que uma quantidade substancial de esgoto dos banheiros da base foram escoados pelo rio.

Ontem, a ONU insistia que não havia ainda uma prova final sobre as acusações. No entanto, a ONU admite que recebeu uma cópia de um relatório do governo francês sobre o assunto, mas não quis fazer comentários.

Pelo menos 2 mil pessoas já morreram por causa da doença e outras 90 mil foram infectadas.

O governo do Haiti já havia confirmado que os casos de cólera foram detectados primeiramente no Rio Artibonite, a poucos quilômetros da base da ONU. No entanto, o chefe da missão das Nações Unidas no Haiti, Edmond Mulet, insistiu que nenhum soldado da ONU tinha sido testado com a doença. Ele ainda defendeu as tropas nepalesas e garantiu que os testes realizados na base haviam dado resultados negativos.

Fontes na própria ONU, no entanto, confirmam que a ordem foi a de manter o caso abafado pelo menos até o fim do processo eleitoral no país. Outra suspeita é que os soldados que levaram a cólera ao Haiti já tenham sido retirados do país, algo que os cientistas estão considerando como uma hipótese.

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