Sameer Al-Doumy / AFP
Sameer Al-Doumy / AFP

Primeiro protesto dos 'coletes amarelos' no ano reúne 50 mil na França

Em algumas cidades, como na capital Paris, houve confrontos com a polícia; o presidente Emmanuel Macron condenou a 'violência extrema' dos atos

redação, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2019 | 16h08
Atualizado 05 de janeiro de 2019 | 19h36

Ao menos 50 mil "coletes amarelos" se manifestaram neste sábado, 5, na França, no oitavo sábado consecutivo de mobilizações, marcado por confrontos com as forças de segurança e criticado pelo presidente francês, Emmanuel Macron, por sua "violência extrema".

"Mais uma vez, uma violência extrema veio atacar a República - seus guardiões, seus representantes, seus símbolos. Quem comete esses atos esquece a base de nosso pacto cívico. A justiça será feita. Todos devem se acalmar para que possa haver debate e diálogo", escreveu Macron no Twitter. 

O "VIII Ato" da mobilização reuniu 50 mil pessoas - mais que as 32 mil do sábado passado -, anunciou o ministro do Interior, Christophe Castaner. No fim de semana anterior ao Natal foram 65 mil manifestantes. Ele procurou, no entanto, minimizar o alcance deste dado: "50 mil é um pouco mais de uma pessoa por município na França (...) Então vemos que esse movimento não é representativo da França", afirmou à emissora LCI. 

Castaner também condenou os confrontos durante o dia, embora reconhecendo que a maioria das manifestações "correu bem". Em particular, ele denunciou ataques a prefeituras, instituições e gendarmarias, assim como "jornalistas e jornais (...) maltratados".

Em Paris, embora a passeata que partiu da avenida Champs-Elysées tenha corrido sem incidentes durante a manhã - com cerca de 4 mil participantes à tarde -, confrontos estalaram em diversos bairros, sobretudo nos cais do Sena. Um incêndio foi registrado em um barco-restaurante ancorado perto do Musée d'Orsay.

Várias motos, um carro e latas de lixo foram queimados no Boulevard Saint-Germain, um bairro nobre do popular centro turístico, onde foram erguidas barricadas improvisadas. "Tacar fogo assim não é possível. É o apocalipse", comentou uma moradora, preocupada com "a imagem da França no mundo". 

No meio da tarde, o porta-voz do governo, Benjamin Griveaux, foi retirado de seu escritório após uma invasão de "coletes amarelos" com um trator ao pátio do ministério, localizado próximo ao do primeiro-ministro. "Havia 'coletes amarelos', pessoas vestidas de preto (...) que pegaram uma máquina de construção que estava na rua e arrombaram a porta do ministério (...) e quebraram dois carros" disse Griveaux à AFP. "Não sou eu quem é alvo, é a República", por "aqueles que desejam a insurreição, derrubar o governo", mas "a República está de pé", declarou.

Várias cidades menores, onde milhares de manifestantes se reuniram, também viveram confrontos nessa nova mobilização.

Em Rouen (noroeste), a polícia disparou bombas de gás lacrimogêneo e balas de defesa (LBD), atingindo um manifestante na parte de trás da cabeça. Em seguida, "coletes amarelos" ergueram barricadas e lançaram projéteis contra um quartel da gendarmeria, segundo o procurador da cidade. 

Em Caen (oeste), "os manifestantes foram à delegacia de polícia com intenções muito agressivas (...) Projéteis foram lançados contra a polícia", disse a Prefeitura em nota. Vários incêndios foram registrados, especialmente em frente ao centro administrativo.

Início

O movimento de "coletes amarelos" reúne franceses das classes média e baixa que criticam, desde 17 de novembro, a política fiscal e social do governo, considerada injusta, e também reivindicam maior poder aquisitivo. Essa forma sem precedentes de mobilização dos cidadãos reflete-se, em especial, na ocupação de rotatórias em toda a França e em sessões de ação aos sábados. 

Esses franceses com menor poder aquisitivo continuam insensíveis às concessões anunciadas pelo presidente Emmanuel Macron  - cancelamento para 2019 do aumento da tributação dos combustíveis, medidas para melhorar o poder de compra por um custo estimado em 10 bilhões de euros, debate nacional que será aberto em meados de janeiro para trazer reivindicações.

Com uma mobilização a mais que no último sábado, Bordeaux e Toulouse (sudoeste) estavam entre os principais bastiões do movimento. 

Precedidos por uma faixa proclamando "Unidos, a mudança é possível", cerca de 4.600 "coletes amarelos" desfilaram em Bordeaux em calma, sem confrontos com as forças de segurança. Em Toulouse, foram 2.000 pessoas, contra 1.350 no último sábado. 

Milhares de "coletes amarelos" também bloquearam em ambas as direções a estrada A7 que atravessa a cidade de Lyon (centro-leste), gerando engarrafamentos na volta das festas de fim de ano. 

"Estamos aqui para mudar o sistema, então enquanto não houver nada que mude, continuaremos a estar lá, não temos razão para voltar", disse Walter, estudante 23 anos de idade. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.