AP Photo/Kenneth Lambert
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Colin Powell, primeiro negro secretário de Estado americano, morre de covid-19

Segundo a família, o ex-secretário de Estado, de 84 anos, havia sido totalmente imunizado; Biden lamenta morte e presta homenagem

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2021 | 09h28
Atualizado 18 de outubro de 2021 | 17h32

WASHINGTON - O general reformado Colin Powell, o primeiro secretário de Estado americano negro, alto oficial militar e conselheiro de segurança nacional, morreu nesta segunda-feira, 18, aos 84 anos devido a complicações da covid-19. Ele foi totalmente vacinado, disse sua família em um comunicado no Facebook. Powell tinha mieloma múltiplo, um câncer no sangue, uma condição que reduz a capacidade do corpo de combater infecções e coloca as pessoas em maior risco de covid-19 grave.

"O general Colin L. Powell, ex-secretário de Estado dos EUA e presidente do Estado-Maior Conjunto, faleceu nesta manhã devido a complicações da covid-19. Ele foi totalmente vacinado. Queremos agradecer à equipe médica do Walter Reed National Medical Center por seu tratamento cuidadoso. Perdemos um marido, pai, avô notável e amoroso e um grande americano", diz o comunicado.

O presidente americano, Joe Biden, expresso sua profunda tristeza pela morte de Powell, a quem se referiu como um amigo e um patriota de inigualável honra e dignidade. Em um comunicado divulgado pela Casa Branca, Biden destacou que o general personificou os mais altos ideias como diplomata e soldado. 

"Esteve comprometido, sobretudo, com a força e a segurança de nosso país. Tendo lutado em guerras, ele entendeu melhor do que ninguém que o poderio militar por si só não é suficiente para manter a paz e a prosperidade", disse Biden, sobre o general de quatro estrelas. Em sinal de respeito, o presidente ordenou que as bandeiras fossem hasteadas a meio mastro em todos os prédios federais do país por quatro dias. 

Influência

Filho de imigrantes jamaicanos, Powell foi uma das figuras negras mais importantes nos Estados Unidos por décadas, sendo nomeado para cargos importantes por três presidentes republicanos entre o fim do século 20 e começo do século 21 - ajudando a moldar a política americana, especialmente de segurança e defesa, no período.

O ex-general alcançou o topo do Exército em um período em que os militares americanos ainda se recuperavam do trauma da Guerra do Vietnã. Ferido durante o conflito, Powell foi nomeado conselheiro de segurança nacional dos EUA pelo presidente Ronald Reagan, de 1987 a 1989. Como general de quatro estrelas do Exército, foi presidente do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas na gestão de George Bush durante a Guerra do Golfo de 1991, na qual as forças lideradas pelos EUA expulsaram as tropas iraquianas do Kuwait.

Entre 2001 e 2005, Powell esteve a frente da política externa americana no governo de George W. Bush, em uma das épocas mais conturbadas da história recente do país, incluindo o 11 de Setembro e suas repercussões. Ele foi o primeiro oficial americano a culpar publicamente a Al-Qaeda de Osama bin Laden pelos atentados e fez uma viagem relâmpago ao Paquistão, em outubro de 2001, para exigir que o então presidente Pervez Musharraf cooperasse com os EUA.

Além dos conflitos com adversários externos - no Afeganistão e no Iraque -, o governo Bush também foi marcado por disputas internas, opondo Powell e, principalmente , o grupo próximo ao vice-presidente Dick Cheney e ao secretário de Defesa Donald Rumsfeld. Enquanto figuras proeminentes começaram a defender a guerra contra o Iraque - quando as tropas americanas já travavam uma guerra no Afeganistão - Powell tentou argumentar internamente que a diplomacia liderasse a questão no Iraque.

Apesar da divergência interna, Powell concordou em defender o caso do governo Bush sobre o armazenamento de armas de destruição em massa pelo governo iraquiano no Conselho de Segurança da ONU - naquela que foi a maior controvérsia de sua carreira.

Em 5 de fevereiro de 2003, Powell afirmou aos seus pares na ONU que o presidente iraquiano Saddam Hussein constituía um perigo iminente para o mundo por armazenar armas químicas e biológicas. Anos depois, o general afirmou a uma escritora que passou cinco dias antes da apresentação "cortando o lixo" que a equipe de Cheney havia fornecido como evidência dos programas de armas de Saddam e supostas ligações com a Al-Qaeda.

"Havia algumas pessoas na comunidade de inteligência que sabiam naquela época que algumas dessas fontes não eram boas, que não deveriam ser levadas em conta, e não se manifestaram. Aquilo me devastou", disse Powell à entrevistadora Barbara Walters em 2005.

A invasão do Iraque ocorreu seis semanas depois da apresentação de Powell na ONU, mas nenhuma das supostas armas de destruição em massa foi encontrada, minando a credibilidade americana por anos. As forças dos EUA lutaram no Iraque de 2003 a 2011, com quase 4.500 soldados americanos mortos e 32.000 feridos.

Na época, Powell continuou sendo um soldado leal - um guerreiro relutante que não ameaçou desistir em protesto ou expressar suas preocupações ao mundo. "A lealdade é um traço que valorizo ​​e, sim, sou leal", disse Powell na entrevista de 2005. E completou: "E há quem diga: 'Bem, você não deveria ter apoiado, deveria ter renunciado.' Mas estou feliz que Saddam Hussein se foi."

Powell anunciou sua renúncia em "acordo mútuo" com Bush após a reeleição do presidente em novembro de 2004. Bush chamou Powell de "um dos grandes servidores públicos de nossos tempos". Ele foi substituído por Condoleezza Rice no segundo mandato do presidente republicano.

Republicano considerado moderado e pragmático, o general chegou a cogitar uma oferta para se candidatar a presidente em 1996 - o que o tornaria o primeiro presidente negro da história dos EUA -, mas teria recusado o convite em razão de preocupações de sua mulher, Alma, a respeito de sua segurança. Em 2008, contudo, Powell rompeu com seu partido para apoiar o democrata Barack Obama, que se tornou, de fato, o primeiro negro eleito para a Casa Branca. 

Quando chegou a vez de eleger o sucessor de Obama, Powell continuou a apoiar os democratas, dizendo que votaria em Hillary Clinton em vez de Donald Trump. Antes da eleição, ele expressou repulsa por Trump em uma série de e-mails que vazaram e que um porta-voz de Powell confirmou que eram autênticos. “Trump é uma desgraça nacional e um pária internacional”, Powell escreveu em um e-mail. 

Os ataques de Trump à questão do local de nascimento de Obama também o preocuparam, como deixaram claro os e-mails. “Sim, todo o movimento 'birther' (que dizia que Obama não era americano) era racista”, disse ele. Powell, na próxima eleição, apoiou Biden e proclamou uma mensagem de apoio a ele na Convenção Democrática Nacional de 2020.

Reações

Autoridades americanas e da política mundial lamentaram a morte de Colin Powell na manhã desta segunda-feira. O ex-presidente americano, George W. Bush emitiu um comunicado assinado por ele e pela mulher, Laura, no qual se dizem "profundamente tristes" com a morte do ex-aliado.

"Ele foi um grande servidor público, desde seu tempo como soldado no Vietnã. Muitos presidentes confiaram nos conselhos e na experiência do general Powell", afirmou o casal Bush, que também expressou solidariedade com a família do ex-secretário de Estado.

Primeiro negro a ocupar o cargo de secretário de Defesa, o general Lloyd Austin afirmou que "o mundo perdeu um dos maiores líderes" já vistos e descreveu Powell como "um amigo pessoal e um mentor". "Ele foi meu mentor por anos. Ele sempre tinha tempo para mim e eu podia sempre levar até ele assuntos difíceis. Ele sempre tinha bons conselhos...", disse o responsável pela Defesa do governo Biden. 

Líder do principal aliado militar dos EUA durante o conturbado período em que Powell foi secretário de Estado, o ex-premiê britânico Tony Blair também prestou sua homenagem, definindo o ex-general como uma grande figura na liderança política e militar americana por anos. "[Era] alguém com imensa capacidade e integridade, uma personalidade extremamente agradável e calorosa e uma ótima companhia, com um senso de humor adorável e autodepreciativo".

Vulnerabilidade

Apesar de ter sido vacinado contra a covid-19, Powell permaneceu vulnerável ao vírus por causa de sua idade avançada e histórico de câncer, destacando o risco contínuo para muitos americanos até que mais população seja imunizada.

Powell havia sido tratado nos últimos anos para mieloma múltiplo, um câncer do sangue que prejudica a capacidade do corpo de combater infecções - e de responder bem às vacinas. As vacinas contra a covid-19 são altamente eficazes contra hospitalização e morte, e os não vacinados têm cerca de 11 vezes mais probabilidade de morrer de coronavírus. Mas elas não são perfeitas, e os especialistas enfatizam que a vacinação generalizada é crítica para dar uma camada adicional de proteção aos mais vulneráveis.

"Quanto mais pessoas são vacinadas, menos temos a disseminação viral na comunidade, menores as chances de pessoas como ele (Powell) serem infectadas, para começar", disse a médica Mangala Narasimhan, chefe de cuidados intensivos da Northwell Health em Nova York. 

Além disso, pessoas com sistema imunológico enfraquecido devido a doenças como câncer - ou tratamentos contra o câncer - nem sempre obtêm o mesmo nível de proteção das vacinas que as pessoas mais saudáveis. Vários estudos descobriram que apenas 45% das pessoas com mieloma múltiplo podem desenvolver níveis protetores de anticorpos que combatem o coronavírus após receberem a vacina. 

A idade também é um risco, especialmente meses depois de alguém ser vacinado pela primeira vez. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) monitoraram quedas na proteção, especialmente entre os americanos mais velhos que estavam entre as primeiras pessoas vacinadas no inverno passado (Hemisfério Norte). A proteção reduzida é o resultado da diminuição da imunidade ou da variante Delta altamente contagiosa.

O governo dos EUA autorizou uma dose extra das vacinas Pfizer e Moderna para pessoas com sistema imunológico enfraquecido para tentar melhorar sua resposta. E, no mês passado, as autoridades de saúde dos EUA recomendaram doses de reforço da vacina Pfizer para todos com 65 anos ou mais, uma vez que tenham passado pelo menos seis meses de sua vacinação inicial, junto com outras pessoas em alto risco. Doses extras também estão sendo consideradas para quem recebeu as vacinas Moderna e Johnson & Johnson. Não ficou claro se Powell recebeu uma dose extra./ REUTERS, AP e NYT

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