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Colômbia apura envenenamento no caso Odebrecht

Alejandro Pizano Ponce de León bebeu água que estava no quarto do pai, que havia denunciado irregularidades e morrido de enfarte três dias antes

O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2018 | 21h59

BOGOTÁ - O engenheiro colombiano Jorge Enrique Pizano deixou a um canal de TV entrevistas e documentos sobre pagamentos suspeitos na construção de uma estrada ligada à Odebrecht, com a condição de que só fossem divulgados se ele morresse ou deixasse o país.

As acusações foram ao ar na segunda-feira, quatro dias após a morte dele, atribuída a um enfarte. O envenenamento por cianureto do filho dele, após beber água em uma garrafa na casa do pai na terça-feira, abriu uma investigação sobre as duas mortes.

 O arquiteto Alejandro Pizano Ponce de León deixou mulher e filho na Espanha para acompanhar o funeral do pai. Segundo a vice-promotora-geral da Colômbia, María Paulina Riveros, o cianureto de potássio estava dentro de uma garrafa de água com gás em um criado-mudo do quarto do pai da vítima. Alejandro, que estava acompanhado de uma irmã, bebeu o líquido e, minutos depois, apresentou uma forte dor estomacal. Morreu a caminho do hospital. 

O diretor do Instituto de Medicina Legal e Ciência Forense, Carlos Valdés, afirmou que a causa da morte de Jorge Enrique Pizano também será analisada pelas autoridades. Ele foi cremado, mas amostras de tecido serão analisadas. A morte dos dois ocorre semanas depois de um acidente de carro no Chile ter ferido gravemente Amparo Cerón Ojeda, procuradora que investiga o caso.

As duas mortes recolocaram o escândalo da Odebrecht no centro do debate político colombiano apenas 100 dias depois da posse do presidente Iván Duque. O caso provocou pedidos de renúncia no Congresso do procurador-geral Néstor Humberto Martínez, no cargo desde 2016, que se declarou impedido de investigar denúncias relativas à construtora brasileira. 

O procurador atuou como advogado da empresa Corficolombiana, sócia minoritária da Odebrecht na construção da chamada Rota 2, estrada que liga o centro da Colômbia ao Caribe, e subsidiária do Grupo Aval, uma das maiores empresas da Colômbia. 

Como controlador contratado pela Corficolombiana, Pizano relatou a Martínez pagamentos suspeitos em contratos feitos na Colômbia e no exterior. Segundo ele, o caso não foi levado adiante dentro da empresa. Ou seja, o atual procurador decidiu não investigar as denúncias sobre um contrato de US$ 2,5 bilhões. Na entrevista divulgada após sua morte, Pizano, que sofria de câncer linfático, disse ter sido traído por Martínez.

O procurador se defendeu. Disse que recebeu Pizano “como amigo” e encaminhou os documentos apresentados por ele a seus superiores, mas o próprio Pizano disse na época que não sabia com certeza que os pagamentos se tratavam de propina. 

“Perguntei a Pizano se podia deduzir que havia propinas e ele me respondeu que não tinha certeza. Uma das hipóteses que ele contemplava era que se tratava de propinas pagas a paramilitares. A dúvida explica a razão pela qual ele não apresentou nenhuma denúncia às autoridades”, afirmou o procurador-geral da Colômbia.

Martínez disse também que só soube que as descobertas de Pizano tinham ligação com as propinas pagas pela Odebrecht em 2017. “Me tornei desconfortável para várias pessoas”, disse Pizano na entrevista gravada para a Notícias Uno, meses antes de sua morte. / THE WASHINGTON POST

 

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