Forças Armadas da Colômbia/REUTERS
Forças Armadas da Colômbia/REUTERS

Colômbia prende Otoniel, um dos traficantes mais procurados do mundo

Prisão feita com 500 policiais e 22 helicópteros na selva colombiana foi comparada à queda de Escobar e é o maior êxito do presidente Duque contra o crime organizado

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2021 | 01h34
Atualizado 24 de outubro de 2021 | 19h48

BOGOTÁ - Em uma operação digna de cinema, com 500 policiais e 22 helicópteros, o governo da Colômbia capturou o narcotraficante mais procurado do país, Dario Antonio Úsuga, conhecido como Otoniel. Essa foi a operação mais importante contra o narcotráfico desde a morte de Pablo Escobar

Otoniel, de 50 anos, foi um camponês que deixou de ser guerrilheiro da esquerda, se transformou em paramilitar de extrema direita e, por fim, se consolidou como o chefe do narcotráfico mais procurado na Colômbia e pelos Estados Unidos, que ofereciam uma recompensa de US$ 5 milhões por informações sobre seu paradeiro ou que permitissem sua captura. 

O narcotraficante era o líder do grupo de paramilitares que se autodenomina Autodefesas Gaitanistas da Colômbia (AGC), também conhecidas como Clã do Golfo, presente em quase 300 cidades do país, segundo o centro de estudos independente Indepaz.

O governo aponta o grupo, que se financia principalmente com o narcotráfico, o garimpo ilegal e a extorsão, como um dos responsáveis pela onda de violência que assola o país, a pior desde a assinatura do acordo de paz com a guerrilha das Farc, em 2016. "Terá que ser o fim desta organização que fez tanto mal aos colombianos", disse o diretor da polícia, general Jorge Vargas.

Nas últimas semanas, Otoniel não tinha casa e dormia em condições de chuva "sem se aproximar de residências", detalhou Vargas. Uma transmissão ao vivo da polícia nas redes sociais mostrou o momento do desembarque de Otoniel em Bogotá, algemado e cercado por vários agentes. Ele foi levado para um edifício da instituição em meio a grandes medidas de segurança. 

"Otoniel foi o traficante mais temido do mundo, matador de policiais e líderes sociais, além de recrutador de crianças. Este é o golpe mais duro que se desferiu no narcotráfico neste século no nosso país, comparável somente com a queda de Pablo Escobar", disse o presidente colombiano, Iván Duque, em mensagem à nação após a captura de Otoniel, no sábado. Escobar foi considerado o grande barão da cocaína e morreu em uma ação da polícia colombiana e a DEA em 1993. 

Esse é o principal êxito do governo conservador no combate ao crime organizado que mais exporta cocaína no mundo. "Sobre este delinquente há ordens de extradição e trabalharemos com as autoridades para cumprir também esta missão", completou Duque.

Operação na selva

Otoniel foi capturado em uma área próxima da fronteira com o Panamá e um dos principais redutos das AGC. "Estávamos atrás dele há sete anos", detalhou o general Fernando Navarro, comandante das Forças Militares.  

Para capturá-lo, a polícia colombiana antecipou um trabalho por satélite com agências dos Estados Unidos e do Reino Unido. Cerca de 500 homens, apoiados por 22 helicópteros, foram mobilizados no município de Necoclí para executar a operação, na qual morreu um policial. A ação foi classificada por Duque como a "mais importante inserção na selva que se viu na história militar do país".

O líder criminoso viajava sozinho, a pé ou em mula, e nunca dormia duas noites seguidas no mesmo lugar, relataram as autoridades colombianas. Nos últimos dias da perseguição, adentrou na mata virgem da região de Urabá, de onde é originário, e se desfez de seus telefones, substituindo-os por correios humanos.

Biografia no crime

Nascido em 15 de setembro de 1971 no município de Necoclí, estratégica região do noroeste da Colômbia, muito próxima da fronteira com o Panamá, mas também do Pacífico e do Caribe, passou a liderar o Clã do Golfo após a morte do seu irmão, Juan de Dios, conhecido como Giovanni, em confronto com a polícia em 2012.

Montou um aparato criminoso com presença em quase 300 dos 1.102 municípios do país, principalmente no Pacífico, um local estratégico para o envio de cargas de drogas, segundo o centro de estudos independente Indepaz. "Tem um portfólio amplo de atividades criminosas, que incluem garimpo ilegal e a passagem de imigrantes para o Panamá", explicou à agência France Press o especialista em segurança Ariel Ávila.

Segundo o centro de investigação do crime organizado InSight Crime, o Clã do Golfo também atua na contratação de gangues de rua locais para realizar em seu nome atividades de microtráfico, extorsão e pistolagem.

Aos 18 anos, Otoniel uniu-se ao Exército de Libertação Popular (EPL), uma guerrilha marxista desmobilizada em 1991. "Não era revolucionário, era o que tinha e foi embora com eles", contou sua mãe em uma entrevista ao jornal colombiano El Tiempo em 2015. Ele não fez parte do processo de paz que pôs fim a 26 anos de luta armada deste grupo rebelde e, entre 1993 e 1994, uniu-se às Autodefesas Camponesas de Córdoba e Urabá (ACCU), uma organização paramilitar de extrema direita, criada para combater as guerrilhas e com ligações com o narcotráfico. / AFP e WASHINGTON POST

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