Colômbia celebra apelo de Chávez como nova vitória sobre as Farc

Pedido para que guerrilha solte reféns e abandone luta armada surpreende Bogotá e indica novo recuo de venezuelano

Ruth Costas com Afp e Efe, O Estadao de S.Paulo

10 de junho de 2008 | 00h00

Bogotá comemorou ontem como mais uma vitória sobre o grupo guerrilheiro Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) o apelo feito na véspera pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, para que a guerrilha solte os reféns e abandone a luta armada. Chávez, que costumava manifestar simpatia e afinidade ideológica com o grupo, disse no domingo que as Farc "não têm mais lugar" na América Latina. "A esta altura, na América Latina, está fora de lugar um movimento guerrilheiro, armado, e isso tem de ser dito às Farc", afirmou o venezuelano. Ele pediu ao líder do grupo, Alfonso Cano, que solte "sem precondições" os reféns em seu poder e abandone as armas. "Tomara que essa atitude se traduza em fatos", afirmou ontem o ministro da Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos, em entrevista à rádio Caracol, de Bogotá. O governo colombiano acusa Chávez de dar apoio logístico e financeiro às Farc com base em documentos encontrados no computador do líder guerrilheiro Raúl Reyes, morto em março. No início do ano, depois de conseguir que as Farc libertassem duas reféns, Chávez defendeu que a Colômbia, os outros países latino-americanos e a Europa deveriam conceder o status de grupo beligerante às Farc, hoje classificadas como terroristas por Bogotá."Isso caiu mal para boa parte da população venezuelana, principalmente a que vive em Estados fronteiriços, porque gente das Farc também mata, seqüestra e extorque comerciantes do lado de cá da fronteira", disse ao Estado o analista político Herbert Koeneke, da Universidade Simón Bolívar. A súbita mudança no discurso de Chávez surpreendeu, mas não foi o primeiro recuo dos últimos meses. "O presidente está mais sensível à opinião pública desde que a derrota no referendo de 2 de dezembro sobre a reforma constitucional enterrou suas expectativas de implementar seu modelo socialista na Venezuela", disse o cientista político José Molina, da Universidade de Zúlia. "Chávez sabe que agora precisa moderar o discurso para tentar evitar uma nova derrota nas eleições de novembro, para governadores e prefeitos."Nos últimos 18 meses, a popularidade do presidente caiu mais de 20 pontos, para cerca de 40%, de acordo com os institutos de pesquisas Hinterlaces e Keller & Associados. Segundo Koeneke, a expectativa para as eleições é de que a oposição, que hoje só tem o governo de dois Estados, saia vitoriosa entre 7 e 11 das 23 regiões venezuelanas. RECUOSChávez começou a reconhecer falhas de sua "revolução bolivariana" em janeiro. Na ocasião, ele chegou a admitir que a TVES, televisão estatal criada para substituir a opositora RCTV (que saiu do ar por decisão do governo), era um fracasso de audiência e anunciou uma anistia para os envolvidos na tentativa de golpe de 2002. Mais recentemente, Chávez adiou uma controvertida reforma no sistema de educação, vista pela população como uma tentativa de criar um "sistema de doutrinamento" no país. No sábado, ele revogou uma polêmica lei de inteligência, que obrigaria todos os cidadãos venezuelanos e estrangeiros a repassarem as informações que lhes fossem requisitadas pelos serviços de inteligência. Quem recusasse estaria sujeito a pena de até 8 anos de prisão. O recuo de Chávez em seu apoio incondicional às Farc também foi bem recebido por outros governos da região, como o do Peru e do México, e com cautela pelos EUA. "É preciso ver se essas boas palavras não são apenas isso: palavras", disse o porta-voz do Departamento de Estado americano, Sean McCormack.Ainda ontem, o ex-refém das Farc Luis Eládio Pérez, que está tentando mediar um acordo humanitário com a guerrilha, disse que vários reféns serão libertados "em breve".RECUOS CHAVISTASFarc (domingo): Chávez afirma que guerrilha não tem mais lugar na região depois de defender a concessão do status de força beligerante ao grupoLei de inteligência (sábado): Presidente revoga lei que obrigaria venezuelanos e estrangeiros a cooperar com os serviços de inteligênciaReforma educacional (em maio): Chávez adia reforma que era vista como tentativa de criar um "sistema doutrinário"RCTV (em janeiro): Chávez admite que a TVES, emissora criada para substituir a opositora RCTV - que saiu do ar em 2007 por decisão do governo -, é um fracasso de audiênciaAnistia (em janeiro): Presidente anuncia anistia para envolvidos na tentativa de golpe de 2002 contra seu governo

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