Colômbia debate quais guerrilheiros entrarão na política

Congresso ainda precisa avaliar quais crimes tornam membros da cúpula das Farc inelegíveis

FERNANDA SIMAS, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2014 | 04h23

A participação de integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) na política após um eventual acordo de paz com o governo despertou uma série de dúvidas entre os colombianos. O primeiro ponto é saber quais guerrilheiros poderão se candidatar. O artigo 3.° do Marco Constitucional, aprovado em 2012, deixa claro que os condenados por crimes contra a humanidade e genocídio serão inelegíveis.

Não fica definido, no entanto, se integrantes da cúpula das Farc, como alguns que participam das negociações de paz em Havana, poderão se candidatar. "Esse é um problema que enfrentaremos nos próximos meses, porque o Congresso é que vai determinar quais são os crimes conexos ao crime político", explica o historiador e coordenador da área de construção da paz e pós-conflito da Fundação Ideias para a Paz, Sergio Guarín.

Os sequestros da guerrilha exemplificam a interpretação que a lei pode ter. O Congresso pode decidir que os integrantes da cúpula da guerrilha foram determinantes, "autores intelectuais" do crime e, portanto, não poderiam ser candidatos. Por outro lado, pode ser decidido que a responsabilidade foi de comandantes da guerrilha. "Neste caso, os comandantes não poderiam participar da política, mas os membros da cúpula, sim", afirma Guarín.

O negociador-chefe das Farc, Iván Márquez, entrou no grupo armado em 1977, mas abandonou a guerrilha para fazer parte do partido União Patriótica após um processo de paz na década de 80.

O nome dele é cogitado para cargos políticos, mas, por integrar a cúpula das Farc, a possibilidade de ser candidato não é garantida. "Ele foi representante da Câmara, tem habilidades políticas, um bom discurso, entendeu e liderou as negociações, seria um candidato natural", diz Guarín.

Intimidação. Um obstáculo para a aceitação da participação política de guerrilheiros é a coação armada que exercem sobre a população. "A guerrilha tem grande capacidade de coagir eleitores. Vendo o mapa eleitoral da última eleição, percebe-se que há municípios com votações atípicas em favor da guerrilha e isso resulta da intimidação para que as pessoas votassem pelo candidato Juan Manuel Santos, é uma coisa inegável", afirma o historiador. A campanha de Santos tinha como principal objetivo levar adiante o processo de paz com as Farc.

A desmilitarização da guerrilha faz parte dos seis pontos da negociação de paz com o governo de Santos e ainda não foi discutida. "As Farc têm uma organização de Exército. Há os soldados regulares, uma estrutura de apoio logístico e um terceiro grupo de milicianos e de pessoas infiltradas, que fazem o recrutamento, distribuem propagandas, fazem trabalhos nas comunidades. Se não forem desarmadas, poderão intimidar os eleitores."

Na opinião de Guarín, o uso de dinheiro do narcotráfico como financiamento de possíveis campanhas políticas de integrantes das Farc não é algo que pese para a aceitação popular da participação política dos guerrilheiros. "O compromisso que acertaram nesse ponto dificultaria muito para os guerrilheiros mobilizar recursos do narcotráfico para as campanhas."

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