Juan Arredondo/The New York Times
Juan Arredondo/The New York Times

Colômbia denuncia que Farc recrutaram 11.556 crianças entre 1975 e 2014

Procurador-geral disse que recrutamento foi feito por meio de persuasão e até mesmo de maneira forçada. De todo o grupo, 33% são mulheres e 67% são homens

O Estado de S. Paulo

17 Maio 2016 | 11h30

BOGOTÁ - A Procuradoria-Geral da Colômbia assegurou na segunda-feira que 11.556 menores foram recrutados entre 1975 e 2014 pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que, na reta final dos diálogos de paz com o governo colombiano, se comprometeram a entregar os que continuam em suas fileiras.

"Dentro das políticas de recrutamento de menores, as Farc estabeleceram a idade de 15 anos como a mínima para entrar nas fileiras guerrilheiras", disse a jornalistas o procurador-geral da nação, Jorge Fernando Perdomo.

Em quase quatro décadas registrou-se "um total de 11.556 menores recrutados", acrescentou o procurador, sem especificar quantos continuam sendo combatentes das Farc, que concluem com o governo de Juan Manuel Santos um processo de paz para acabar com mais de meio século de conflito armado.

No âmbito destas negociações, as partes acordaram no domingo que todos os menores começarão a sair em breve da guerrilha. O recrutamento dessas crianças foi feito "persuadindo, enganando e, em muitos casos, claramente de forma forçada", afirmou o procurador. Tratou-se de "uma política sistemática e generalizada de recrutamento dirigida de 1975 até 2014", destacou. Deles, 33% são mulheres e 67%, homens, segundo os mesmos dados.

"O primeiro recrutamento forçado registrado é o de Enrique Ríos, conhecido como 'Víctor', de 17 anos, em Uribe, pelo (líder rebelde morto) Manuel Marulanda Vélez, para a Frente 16. A primeira mulher recrutada foi Olga Flórez, conhecida como 'Amparo', de 16 anos, em maio de 1979, em Lauréis", disse Perdomo.

O titular da Procuradoria-Geral detalhou que foram analisados, entre outros, os estatutos das Farc, computadores apreendidos de líderes conhecidos como "Mono Jojoy" e "Alfonso Cano", mortos em operações militares, assim como dispositivos eletrônicos e documentos da terceira e sétima conferência e planilhas do Secretariado e do Estado-Maior.

Perdomo apontou Iván Márquez, chefe negociador da guerrilha, como um dos principais recrutadores de menores do grupo insurgente e acrescentou que a informação compilada pela procuradoria "está pronta para ser entregue à jurisdição especial de paz". Segundo previsões, ela começará a funcionar após a assinatura do acordo final para julgar os crimes mais graves cometidos pelos agentes do conflito.

O procurador acrescentou que o recrutamento de menores "constitui um crime internacional, que é um crime de guerra".

O governo colombiano não forneceu um número exato de menores que continuam pertencendo à principal guerrilha do país, mas segundo dados oficiais, 6 mil crianças foram separadas das organizações armadas ilegais nos últimos 17 anos, 60% deles provenientes das Farc.

A desvinculação destes combatentes começará com a saída de um grupo de "21 menores de 15 anos", afirmou a guerrilha, enquanto se acorda um "mapa do caminho" para os jovens que ainda não completaram 18 anos.

A Procuradoria também acusou a guerrilha, com 7 mil combatentes, segundo dados oficiais, de ter criado em zonas rurais "clubes infantis bolivarianos (...) para se aproximar de menores de 5 a 12 anos" em busca daqueles que poderiam ser considerados “simpatizantes".

O conflito armado, que começou nos anos 1960 como uma revolta camponesa, envolveu grupos irregulares de esquerda e de direita e agentes do Estado, deixando 260 mil mortos e 6,8 milhões de deslocados. /AFP e EFE

Mais conteúdo sobre:
Colômbia Farc recrutamento crianças

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.