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Colômbia pode aceitar cessar-fogo bilateral com Farc

Chefe da equipe de negociadores do governo afirma que processo de paz com a guerrilha está no final, ‘para o bem ou para o mal’

O Estado de S. Paulo

06 de julho de 2015 | 03h00

Em meio aos recentes ataques da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e tendo em vista os novos resultados de pesquisas mostrando que menos da metade da população colombiana apoia uma solução negociada do conflito de mais de 50 anos, o chefe da delegação do governo Humberto de la Calle afirmou que a negociação está perto do fim, “para o bem ou para o mal.”

Em entrevista ao jornalista independente Juan Gossaín, De la Calle também comentou sobre a possibilidade de um cessar-fogo bilateral antes da assinatura de um acordo final com a guerrilha.

“Acredito que o processo está chegando ao fim, para o bem ou para o mal. Ou porque chegaremos a um acordo, já que estamos trabalhando na reta final dos temas de fundo. Ou por mal, se a paciência dos colombianos acabar. O risco existe”, afirmou o negociador referindo-se aos recentes ataques das Farc. Ele não informou um prazo final para as negociações, mas justificou o pouco respaldo da população às conversações de paz. “É produto dos acontecimentos dos últimos dias. Há uma onda de destruição da infraestrutura nacional, com impactos terríveis para a população civil.”

Durante a entrevista, De la Calle citou a pressão das Farc por um cessar-fogo bilateral antes do fim das negociações e revelou que o governo estaria disposto a aceitar a proposta se fosse feita em “condições de seriedade e verificação”, com o fim das hostilidades e do narcotráfico. “No começo, a posição do governo era que o cessar-fogo só ocorreria com o acordo. Nessa questão, mudamos de opinião. Estamos dispostos a aceitar um cessar-fogo antes da assinatura, na medida em que seja sério, bilateral, definitivo e verificável, a partir do ponto em que tenhamos a garantia de que eles (guerrilha) assumirão sua responsabilidade na questão judicial”, afirmou o negociador.

Questionado sobre a razão dos ataques das Farc se as negociações estão em andamento, De la Calle explicou que o atual momento é o pior desde que as conversas começaram em 2012, mas espera que a guerrilha mude de atitude mesmo com integrantes do grupo dizendo que as ações continuarão.

Pós-conflito. O negociador também comentou a decisão de se criar uma comissão da verdade - último ponto acordado nas reuniões que ocorrem em Havana - e explicou o que foi colocado à mesa sobre a questão justiça, outro ponto dentro do tema vítimas, em discussão atualmente. “A partir do marco jurídico para a paz, existe a possibilidade de selecionar, primeiramente, os atos mais graves, para que sirvam como referência: um massacre, sequestros, violência sexual. O que se busca é limitar a ação penal a esses tipos de delitos e seus responsáveis. A eles seria aplicada a mesma pena das atuais leis, mas que poderia ser reduzida a uma pena alternativa, paga em condições de dignidade, sem as grades e as roupas listradas.”

As Farc, segundo De La Calle contou ao jornalista, estão dispostas a aceitar um sistema de “justiça transicional” com esses termos. Além disso, o representante do governo de Juan Manuel Santos acrescentou que para se chegar a uma paz no país, “todas as verdades” precisam ser esclarecidas, até as “ações macabras” cometidas pelo Estado.

O negociador afirma que o predomínio militar do Estado colombiano é indiscutível, diferente da situação da guerrilha, e argumenta sua posição dizendo que colocar uma bomba em um oleoduto, como ocorreu recentemente, afeta apenas os civis e não tem efeito militar. Para ele, a “guerra estratégica já acabou e o Estado ganhou”, sendo que as recentes ações são uma “ressaca tática” que pode levar anos para acabar e prejudicar muitas pessoas.

“Apesar dessa realidade, as Farc chegam à mesa (de negociações) quase com a obrigação de dizer ‘não fomos derrotados’. As Farc lutam agora com a própria identidade como grupo, com seu futuro, sua história. Perderam a guerra, mas insistem em sua condição de rebeldes, pois dizem que não podem deixar de lado 50 anos de luta”, acrescenta De La Calle sobre como vê o papel da guerrilha no contexto atual.

Política. No fim da entrevista, o chefe da delegação foi questionado sobre o papel que ocupariam as Farc após deporem armas e comentou o temor da população de a guerrilha obter cadeiras no Parlamento sem que haja uma eleição. Para ele, em uma etapa transitória, a Colômbia precisa “ter a mente aberta” e permitir a participação das Farc como partido político desarmado, “abrir as portas políticas para as Farc”. “Desarmados, que sigam dando voz à sua ideologia”, afirmou. 

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