Colômbia rouba a cena

Prosperidade democrática', promessa de campanha de Juan Manuel Santos, começa com trégua com Hugo Chávez e busca da sintonia na América do Sul

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Fizeram uma dupla improvável. O discreto presidente colombiano, Juan Manuel Santos, de camisa branca e calça cáqui, ficou quase apagado diante de seu bandeiroso par venezuelano, Hugo Chávez, com seus 1,84 metro e desfilando uma jaqueta com as cores da república bolivariana.

Muito menos provável era a missão oficial no dia 11, em Santa Marta, vilarejo colombiano onde morreu Simón Bolívar, patrono da união sul-americana. Os dois mandatários, desafetos até quarta-feira, resolveram decretar a paz após anos de desconfiança mútua e uma custosa guerra fria. Da cúpula, saíram cinco comissões bilaterais de trabalho e muitos gestos de boa vizinhança. Que le vaya bien, como diriam os hermanos ao norte.

Uma tarde de gentilezas dificilmente liquidará o imbróglio andino. Caracas e Bogotá não se entendem desde 2002, quando Álvaro Uribe assumiu a presidência da Colômbia e lançou a guerra total contra a guerrilha marxista das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o narcotráfico, com apoio visceral dos Estados Unidos - o império do mal, na apostila chavista.

Como ministro da Defesa, Santos comprou a briga e em 2008 ordenou um ataque fulminante contra um acampamento das Farc na selva do Equador, da aliança bolivariana. Chávez tomou as dores do companheiro e até hoje ninguém perdoa ninguém (Santos pode ir preso ao pisar em solo equatoriano), mas todos estão de olho na nova investida diplomática. Dependendo dela, a América do Sul pode experimentar um raro momento de sintonia entre povos e mercados. Senão, está praticamente garantida mais uma rodada de bandidagem, comércio truncado e fanfarrice diplomática. Assim, perderiam todos. Mas na disputa por corações e mentes, a Colômbia tem vantagem competitiva.

Estável, mais seguro e com uma democracia consolidada, o país de 45 milhões desponta na América Latina. A economia cresce 5% ao ano, sem inflação, e a Bolsa de Bogotá já subiu 35% desde janeiro. O país virou xodó dos investidores estrangeiros, a exploração de petróleo e gás está em alta. A sociedade que acelerava para a barafunda, afugentando cérebros e capitais, agora debate como aproveitar a repentina enxurrada de moeda estrangeira. A modesta Colômbia agora pertence aos Civets (Colômbia, Indonésia, Vietnã, Egito, Tailândia e África do Sul), o grupo de nações de porte médio que Michael Geoghegan, chefe do Banco HSBC, batizou dos "novos Brics".

Exagero? Afinal, o PIB colombiano, de US$240 bilhões, é apenas o quinto do continente e um nanico frente China e Índia. Quase a metade da população vive abaixo da linha de pobreza e a taxa de desemprego (12%) está entre as mais altas da região. A constante violência no campo desterrou mais de 3 milhões de camponeses. Pior, o país amarga uma década de isolamento político por seu pacto (de sobrevivência, diga-se) com Washington, elo que ainda provoca urticária entre governantes da região, sejam eles do eixo de Chávez ou não.

É um paradoxo que o marketing bolivariano tenha mais ressonância debaixo do Equador do que a vivência colombiana da última década. Nela, o país se refez. Na gestão de Uribe, as Farc definharam e hoje estão confinada às matas. De 2003 a 2009, o número de sequestros despencou 88% e de homicídios caiu pela metade. Crimes violentos ainda assolam as cidades menores e a guerrilha ensaia uma renovação (como evidenciou o carro-bomba que explodiu na capital na quinta-feira). Mas Bogotá hoje tem um quinto dos assassinatos de Caracas, uma das cidades mais perigosas do mundo.

Com a nação em paz, cabe a Santos a dura tarefa de mantê-la e ainda aprofundar a justiça, criar empregos, e atacar a pobreza. Habilmente, trocou o slogan uribista de "segurança democrática" pelo mais palatável "prosperidade democrática". Esperto, calou-se quando Uribe bateu no governo Chávez por tolerar a guerrilha em território venezuelano, para depois afagar o vizinho com gestos diplomáticos. Meio malandra, meio estadista, assim é a diplomacia colombiana.

Ainda é cedo para prever o desfecho da trégua de Santa Marta. Mesmo em fase minguante, o projeto da Venezuela de socialismo do século 21 ainda marca terreno, uma nova linha de Tordesilhas, repartindo as Américas entre bolivarianos e o restante. No lado venezuelano, sobram manifestos e faltam luz e mantimentos, derrubando o PIB. Por inépcia ou asfixia, sua economia é a única do hemisfério a caminho da recessão, à exceção da do Haiti, que tem bom álibi.

Com a popularidade beirando os míseros 44%, o governo Chávez caminha para a débâcle nas eleições parlamentares em setembro. Os chavistas podem até manter a maioria, mas para quem sempre governou absoluto, dividir o poder é crise certa. Mais crise, mais funda a fossa do continente, e com ela lá se vai o momento fotográfico entre os parceiros, Santos e Chávez. Mas quem apostar contra a nova Colômbia pode se dar mal.

É COLUNISTA DE AMÉRICA LATINA

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