Colômbia vai às urnas no domingo em eleição previsível

A expectativa é que o atual presidente, Álvaro Uribe, se reeleja ainda no primeiro turno. Segundo diferentes pesquisas de opinião, ele tem cerca de 60% das intenções de voto, contra cerca de 20% do candidato de centro-esquerda Carlos Gaviria, do Pólo Democrático, e 10% do ex-embaixador Horácio Serpa, do histórico Partido Liberal.A previsão é inclusive que a taxa de abstenção - historicamente na casa dos 50% - seja ainda maior, dada a sensação entre os eleitores de que o pleito já está decidido. O voto não é obrigatório no país.A Colômbia tem 42 milhões de habitantes, e a principal arma de Uribe para vencer as eleições e manter sua popularidade (hoje na casa dos 70%), de acordo com analistas, continua sendo a bandeira do combate aos grupos guerrilheiros e ao narcotráfico.Violência"O presidente Uribe apoiou sua candidatura no cansaço das pessoas com o conflito armado, na rejeição popular às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, a principal guerrilha do país) e na necessidade de um Estado com mais autoridade", diz o professor argentino de relações internacionais Juan Gabriel Tokatlian, que viveu quase 20 anos em Bogotá. "Apesar de a economia e de a área social não terem melhoradomuito no seu governo, Uribe colocou a questão da segurança no coração do debate nacional." Álvaro Uribe foi eleito para o atual mandato em 2002. Desde então, segundo a Fundação Segurança e Democracia - a mais importante do país na área de investigação e de dados do setor -, a violência vem diminuindo e a taxa de homicídios em 2005 foi a mais baixa em 20 anos.No ano passado foram registrados 17.786 homicídios, 24% menos do que em 2004, cujo índice já tinha sido 12% mais baixo do que no ano anterior.Segundo a mesma fundação, foram registrados 339 seqüestros no ano passado, três anos depois de Uribe ter sido eleito - uma queda de 72% em relação a 2003, e também a mais baixa em duas décadas.A maioria dos seqüestros na Colômbia é atribuída a grupos guerrilheiros ou paramilitares (que vêm diminuindo). "Sem dúvida alguma, a queda na violência está ligada à política de segurança democrática", diz o relatório da fundação em referência ao nome do plano de Uribe contra a insegurança e as ações guerrilheiras.Segurança e investimentosEm suas viagens pela Colômbia, Uribe costuma repetir que um país sem segurança "não é capaz de atrair investimentos e não pode resolver seus problemas sociais". Sua estratégia, segundo diferentes analistas, é fortalecer o Estado num país onde, para a população, ele esteve ausente e permitiu o nascimento dos atentados, seqüestros e mortes - de acordo com dados oficiais, na última década, mais de 25 mil colombianos foram assassinados, por ano, em áreas rurais ou urbanas.A força de Uribe, porém, não é apenas um mérito de seu governo, mas também resultado da falta de uma oposição que faça sombra ao presidente. "A única maneira de derrotá-lo seria a oposição se unir em torno de um só candidato. Mas isso não ocorreu e Uribe saiu ainda mais fortalecido", disse o professor Tokatlian.A oposição, principalmente o Pólo Democrático, questiona o estilo de Uribe de combater o crime. "Mais educação e mais oportunidades de trabalho. É disso que a Colômbia precisa para ter paz", afirmou o candidato Gaviria, que questiona a militarização no enfrentamento da delinqüência.EleiçõesNas ruas de Bogotá, a presença dos militares - em quase todas as esquinas - é o principal vestígio de que os colombianos terão eleições no domingo.O forte esquema de segurança faz parte da estratégia do governo Uribe, segundo seus próprios assessores, para manter "o país em paz", evitando possíveis novos ataques dos grupos guerrilheiros, como as Farc e o ELN (Exército de Libertação Nacional).Segundo a Fundação Segurança e Democracia, esta é a eleição menos violenta em anos. Só na comparação entre o período eleitoral de 1997 (eleições municipais), 1988 (eleições legislativas), 2002 (eleições presidenciais) e este ano (legislativas em março e presidenciais no domingo), os seqüestros de políticos diminuíram em 97%.No período entre 1997-1998 foram 507 seqüestros. Em 2002, 210, e entre o ano passado e este, apenas sete. Nos três períodos eleitorais analisados, os homicídios de políticos, em período de campanha, passaram de 150 para 125, para chegar a 35 entre 2005 e 2006. Nos últimos anos, uma candidata presidencial (Ingrid Betancourt), 19 prefeitos, 25 vereadores, um governador e 19 deputados, entre outros, foram seqüestrados. Só em 2002, ano da última eleição, mais de 2 mil colombianos, de diferentes classes sociais, foram seqüestrados por grupos guerrilheiros, disse o Ministério da Defesa.Em períodos eleitorais anteriores, os atentados foram freqüentes e incluíram a morte e seqüestro de candidatos. O próprio Uribe escapou de várias tentativas de assassinato. Há quase um mês, a irmã do ex-presidente César Gaviria, líder do Partido Liberal, foi seqüestrada e morta.Em Bogotá, não há cartazes ou bandeiras dos presidenciáveis, mas a provável reeleição - a primeira em mais de um século - e o poder de Uribe são debatidos nas emissoras de televisão, como as TVs Capital e Caracol. "É lamentável que o presidente Uribe não tenha participado de um debate político sequer. Deixa a sensação de que acha que está por cima dos demais", disse o diretor da revista Semana, Alejandro Santos Rubino, à uma das emissoras locais.Se a eleição não for definida neste domingo, o segundo turno será realizado no dia 18 de junho.

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