Jesús Abad Colorado /
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Colombiano de 45 anos relata vida nas Farc, às quais se uniu quando ainda era criança

Emilio é filho de um membro da guerrilha que morreu em combate; ele faz parte de três gerações de uma mesma família que resolveram entrar para o grupo

O Estado de S.Paulo

16 de março de 2017 | 14h46

LA VARIANTE, COLÔMBIA - Nas fileiras das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) desde que tinha 10 anos de idade, Emilio passou toda sua vida na guerrilha. Agora, aos 45, pensa em como será encerrar esse ciclo no grupo armado que, segundo ele, lhe deu tudo.

Filho de um membro das Farc que morreu em combate, Emilio faz parte de três gerações de uma mesma família que resolveram integrar as fileiras da guerrilha para lutar uma guerra considerada por eles como algo que lhes foi "imposto".

Em um acampamento provisório situado em La Variante, área rural de Tumaco, município do Departamento de Nariño, Emilio espera junto com cerca de outros 300 guerrilheiros que esteja terminada a zona de vereda transitória de normalização (ZVTN) de La Playa, onde se reunirão para deixar as armas e se desmobilizar.

"Estou há mais ou menos 35 anos trabalhando com as Farc e, desde pequenino, as primeiras botas e roupas foram eles que me deram. Daí segui com eles", contou Emilio sobre sua chegada à guerrilha.

Ele nasceu em Cimitarra, uma cidade da região do Magdalena Medio, que durante décadas foi cenário de uma sangrenta guerra pelo controle territorial entre as Farc e grupos paramilitares, conflito que em 1982 os obrigou a deixar região e assentar-se em Puerto Asís, no Departamento de Putumayo, na fronteira com o Equador.

"Meu pai também foi miliciano" lembrou o veterano da Frente Marechal Antonio José de Sucre, que diz que sua família "trabalhou bem com as Farc" e recebeu "muita ajuda deles".

Segundo afirma, durante muitos anos em Puerto Asís estiveram "trabalhando" com as frentes 48 e 32 que operam na região do sul da Colômbia. "Ali mataram meu papai e depois viemos para cá, para Nariño, e trabalhamos com a Marechal", disse no acampamento ao pé de uma cruz de madeira que marca o lugar da sepultura de "Alvin, o esquilo".

Emilio explicou que se trata de um roedor que foi mascote dos guerrilheiros, os quais lhe deram o nome do personagem do filme "Alvin e os Esquilos", que morreu no dia 30 de janeiro.

Ele considera sua atividade de guerrilheiro um trabalho como qualquer outro, e por isso seus dois filhos também estão nas Farc. "Isso é como uma tradição”, declarou.

Apesar da naturalidade com a qual fala de toda uma vida em meio ao conflito armado, Emilio, que se expressa com alguma dificuldade, reconhece que a luta armada não é fácil. "Foi muito dura a guerra porque ela caiu sobre nós e a suportamos. Assim como dizem que há um Deus que cuida de um e de todo mundo, eu acredito que ele nos ajudou", comentou ele.

John Valencia, um franco-atirador da temida Coluna Móvel Daniel Aldana, também entrou muito jovem nas Farc, onde está há "sete anos lutando por esse povo colombiano para que tenhamos igualdade e mudança social".

Sobre o futuro que lhes espera a partir de junho, uma vez que tenham deixado as armas nas mãos da ONU e estejam desmobilizados, Emilio e John consideram que devem seguir a ideologia que lhes motivaram, mas não nas trincheiras, e sim na arena política.

"Nós seguimos o que é a política, porque nós daqui nunca pensamos em nos abrir. Por aí se diz que vão fazer um povoado para nós ficarmos, formar uma política e seguir adiante com o que o governo nos vai dar (...). Mas eu acho difícil porque fazem armadilhas, nos dizem mentiras", declarou Emilio, citando como exemplo a demora na construção da ZVTN de La Playa.

Veja abaixo: Começa o desarmamento das Farc

John, que ao contrário de Emilio é o único de sua família envolvido com a guerrilha, concorda com o companheiro e acrescenta: "Até agora o Estado não cumpriu com o que disse nos acordos feitos em Havana. Eles trazem algumas coisas pensando que fôssemos algo que não valesse".

"Eu ficaria nesta região trabalhando com algo de agroeconomia, algo para o povo, para a cidadania colombiana, que alguém tenha algo que colher, que se produza, algo que seja legal, que não seja ilegal", concluiu ele sobre seu futuro. / EFE

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