Jose Miguel Gomez /Reuters
Jose Miguel Gomez /Reuters

Colombianos contrários ao acordo de paz com Farc criticam presença de ex-guerrilheiros na política

Grupo considera brandas as punições aos responsáveis por crimes hediondos e exige que a indenização às vítimas seja feita com dinheiro da guerrilha e não do poder público

O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2016 | 15h18

BOGOTÁ - Everth Bustamante pertenceu ao grupo insurgente Movimento 19 de Abril, foi eleito senador em 2014 pelo Centro Democrático (direita) liderado pelo ex-presidente Álvaro Uribe e agora é um dos mais ferrenhos opositores ao acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Considerado o "chanceler" do M-19, desmobilizado em 1990, Bustamante é um dos defensores do "não" ao acordo entre o governo e as Farc por considerar que o presidente colombiano Juan Manuel Santos "cedeu muitas coisas para a guerrilha".

"O acordo está mal concebido, tanto a parte econômica, jurídica e política têm sérios defeitos", afirmou o advogado de 68 anos, que entre 1985 e 1990 conduziu as relações internacionais da guerrilha.

Entre seus questionamentos está, principalmente, o fato de que considera brandos os castigos contra os responsáveis por crimes hediondos, exige que a indenização das vítimas seja feita com dinheiro das Farc proveniente do narcotráfico e não do poder público, e critica a participação na política de ex-guerrilheiros acusados de cometer crimes contra a humanidade.

Segundo o acordo de paz, quem confessar crimes hediondos ante um tribunal especial poderá evitar a prisão e receber penas alternativas. Se não o fizer, será declarado culpado e condenado a penas de 8 a 20 anos de prisão. Os acusados de delitos políticos, como rebelião, serão anistiados.

Os rebeldes terão assegurada uma representação mínima no Congresso de cinco senadores e cinco representantes na Câmara durante dois períodos legislativos, cada um de quatro anos, e poderão disputar eleições.

"Eu pessoalmente estou de acordo que os membros das Farc participem da política, mas não pode haver impunidade para quem tem responsabilidade em crimes contra a humanidade, como estupros, tortura e sequestro", explicou Bustamante. Ele cita como exemplo o processo de paz de sua organização, em 1991, no qual seus integrantes não foram anistiados e tiveram de se apresentar ante tribunais.

Por todos esses motivos, Bustamante votará "não" no plebiscito que será realizado no dia 2 de outubro, quando os colombianos decidirão se aprovam ou não o acordo negociado em Cuba desde 2012. Segundo as pesquisas publicadas nas últimas três semanas, entre 28% e 38% dos eleitores optarão pelo "não".

Justiça. Assim como Bustamante, milhares de colombianos rejeitam o acordo. Liderando essas pessoas estão os ex-presidentes Álvaro Uribe (2002-2010) e Andrés Pastrana (1998-2002), que consideram a negociação uma "entrega do país ao terrorismo" e ao que chamam de "castro-chavismo", algo negado por Bogotá.

Entre os opositores também há artistas, esportistas e celebridades, que reclamam da falta do aspecto punitivo contra os insurgentes e da permissão para que os guerrilheiros atuem na política.

Veja abaixo: O acordo de paz entre Colômbia e as Farc

Bustamante, no entanto, reconhece que em um acordo de paz não se pode querer conseguir "um modelo perfeito". Ele nega ser de direita e não se arrepende de sua vida na guerrilha, porque acredita que, em seu momento, fez muito por seu país.

Neste caso, segundo ele, as Farc "não têm apoio popular". "As pessoas estão cansadas da violência e certamente deve haver um apoio majoritário ao 'sim' no referendo, e isso nos deve levar a uma reflexão", concluiu. / AFP

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