Luis ACOSTA/AFP
Luis ACOSTA/AFP

Conservador e ex-guerrilheiro se enfrentarão em 2º turno na Colômbia

Iván Duque, ligado ao ex-presidente Álvaro Uribe, disputará presidência no dia 17 com o esquerdista Gustavo Petro; em Catatumbo, região cocaleira dominada pelo narcotráfico, votação ocorre enquanto guerrilheiros lutam por espaço das Farc

Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial a Tibú Catatumbo, Colômbia, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2018 | 15h24
Atualizado 28 Maio 2018 | 16h24

O candidato conservador Iván Duque, afilhado político do ex-presidente Álvaro Uribe, venceu o primeiro turno da eleição colombiana neste domingo, 27, e enfrentará o esquerdista Gustavo Petro, ex-guerrilheiro e ex-prefeito de Bogotá, no dia 17 de junho. Duque obteve 39,1% dos votos e Petro ficou com 25,1%. O terceiro colocado, Sergio Fajardo (23,7%), ex-prefeito de Medellín, não apoiará o esquerdista em uma frente antiuribista. Isso aumenta o favoritismo de Duque.

Segundo uma fonte próxima a Fajardo consultada pelo Estado, Petro é considerado uma “ameaça à democracia”. O esquerdista tentou, na reta final da campanha, se afastar de sua ligação com o chavismo. Ele chamou Nicolás Maduro de ditador e disse não reconhecê-lo como presidente. Ex-guerrilheiro do grupo M-19, Petro foi próximo de Hugo Chávez. Na prefeitura de Bogotá, entre 2012 e 2015, promoveu estatizações e investimento em programas sociais. 

Um dos eixos da disputa entre Duque e Petro será a posição antagônica de ambos sobre o acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e a negociação com grupos armados que ocuparam o espaço deixado pela mais conhecida guerrilha do país. Duque promete rever a Justiça Especial para ex-guerrilheiros e dá sinais de que tem outras prioridades antes de negociar com o Exército de Libertação Nacional (ELN) ou com o Exército Popular de Libertação (EPL). O diálogo tenderia a se aprofundar com Petro no poder. 

Em alguns pontos do país, a ameaça de atentados desses grupos armados manteve neste domingo eleitores em suas casas. Em Catatumbo, área disputada a sangue durante décadas em razão do microclima favorável ao plantio de coca e da facilidade de escoamento para a Venezuela, é uma delas.

Os moradores de Tibú, cidade de 36 mil habitantes, não sabiam se tinham ou não licença para votar. Na quarta-feira, comerciantes receberam por WhatsApp um panfleto virtual, no qual um dos grupos armados da região, o EPL, decretava um “paro armado”. 

Quando isso ocorre, o comércio não abre, o transporte não funciona, as crianças não vão para escola. Quem desrespeita a instrução vira alvo. Foi o que ocorreu em março, quando um “paro armado” decretado pelo EPL durou 8 dias. Este grupo disputa com o ELN o território deixado pelas Farc.

+ The Economist: Os favoritos são opções arriscadas

Antes da votação de hoje, o EPL garantiu por áudio não ter sido responsável pela ordem. Insinuou também tratar-se de um plano da direita para manter potenciais eleitores de Petro em casa. Na votação, o Departamento Norte de Santander, onde fica Catatumbo, deu a Duque o seu melhor desempenho: 61% dos votos.

Tenha ou não sido emitido pelo EPL, o fato é que o medo afetou a eleição na região. Os cidadãos usaram seus veículos, o comércio abriu, mas o transporte público desde Cúcuta, maior cidade na região, não existiu. Nenhuma empresa se arriscou a colocar os ônibus na estrada. Durante os “paros armados”, veículos em movimento são queimados.

Neste domingo, a frota da empresa Catatumbo foi pichada com a palavra Farc. Nas chamadas “veredas”, pequenos povoados encravados na montanha, alguns com cultivo de coca escoada pela Venezuela, agricultores ficaram em suas chácaras por precaução. “A participação foi muito baixa nessas regiões mais afastadas, por causa de ameaças, mas normal no centro da cidade”, disse ao Estado o promotor Richard Claro, um dos encarregados de levar as mesas de votação aos lugares mais isolados. Ele vive há seis anos sob ameaça dos grupos armados. 

Catatumbo é considerado uma das mais complexas áreas do país por ter, além do EPL e do ELN, dissidentes das Farc e grupos criminais comuns. Uma dissidência das Farc em atividade na região, a Frente 33, emitiu um comunicado, também divulgado por WhatsApp, dizendo que o grupo permanece ativo e integrantes da guerrilha decidiram retomar as armas por descumprimento do acordo por parte do governo colombiano.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.