Federico Rios Escobar/The New York Times
Federico Rios Escobar/The New York Times

Colombianos rejeitam acordo de paz entre governo e Farc

Segundo analistas, uma possível renegociação depende agora da guerrilha e não do governo porque é preciso ver até que ponto o grupo estará disposto a renegociar as condições acertadas desde 2012, principalmente nos pontos sobre anistia e justiça

O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2016 | 19h22

BOGOTÁ - Os colombianos reprovaram neste domingo, 2, o acordo de paz entre o governo de Juan Manuel Santos e a guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) por 50,24% dos votos (6.400.516) contra 49,75% (6.338.473), que optaram pelo "sim". Agora Santos tem, segundo analistas ouvidos pela imprensa colombiana, seu maior desafio como estadista. O presidente havia adiantado que, em caso de derrota na votação, os acordos negociados por seis anos - sendo dois em segredo - ficariam sem valor e a guerra continuaria, não havendo renegociação.

Analistas afirmam que uma possível renegociação depende agora da guerrilha e não do governo porque é preciso ver até que ponto as Farc estarão dispostas a renegociar as condições acertadas desde 2012, principalmente nos pontos sobre anistia e justiça. Após a divulgação dos resultados, o chefe negociador das Farc, Luciano Marín Arango, conhecido como Iván Márquez, afirmou que a guerrilha vai se reunir para decidir qual será o próximo passo e então um pronunciamento será feito.

O sentimento no país é de incerteza após o quarto fracasso em uma negociação de paz com a maior guerrilha da América Latina. As pessoas que se reuniram em praças de Bogotá para acompanhar a apuração do plebiscito reagiram com surpresa e muita tristeza. Na Casa de Nariño, sede do governo nacional, Santos convocou uma reunião de emergência com a equipe negociadora.

O político opositor Francisco Santos, do partido Centro Democrático - principal partidário do "não" - afirmou que não deseja ver o país voltar à violência. "Vamos garantir que o acordo seja um acordo que una o país e termine com bons resultados e garantias às Farc", afirmou, referindo-se a uma "necessária" renegociação. O senador e ex-presidente Álvaro Uribe, principal nome político na campanha pelo "não" já falava em uma renegociação caso o acordo fosse rejeitado pela população.

Segundo o desenho da votação, as regiões mais afetadas pelo conflito e a capital colombiana votaram pelo "sim" ao acordo de paz, enquanto grandes cidades do centro do país optaram pelo "não". Além disso, o desenho final confirmou a tendência eleitoral das últimas eleições: o centro do país mais conservador e uribista e as costas mais santistas.

Em Boyacá, onde as Farc pediram desculpas na semana passada para as vítimas do conflito, o "sim" ganhou com 188.840 votos, contra 188.170 do "não". Em La Macarena, o "sim" obteve 2.238 votos e o "não", 800. Na capital Bogotá, o sim ganhou por 1.423.612 votos a 1.114.933. Na cidade de Medellín, o "não" saiu vencedor, com 420.838 votos a 248.176.

No Departamento (Estado) de Tolima, onde fica a região de Planadas, local de nascimento das Farc, o "não" ganhou por 243.150 votos a 164.061.

A votação foi apertada e a diferença de votos ficou em cerca de 60 mil votos. O dia do plebiscito foi movimentado no país, mas começou com baixa participação da população em razão do mau tempo. Com 83% das mesas de votação apuradas, o número mínimo de votos necessários para garantir a vitória do "sim" foi alcançado, mas a diferença entre a opção para o "não" era pequena: 5.235.558 votos favoráveis ao acordo e 5.234.986 contra. Pouco depois, a situação se inverteu. 

Segundo analistas ouvidos pela TV Caracol durante a apuração dos votos, os resultados surpreenderam já que pesquisas apontavam a vitória do "sim" sobre o "não" com 60% a 40%. Uma explicação, segundo eles, é que as pessoas que diziam não saber o que votariam, na verdade optariam pelo "não", mas com a pressão social que havia no país, as pessoas tinham “vergonha” de declarar o voto contrário ao acordo.

O voto no plebiscito não era obrigatório. Estavam cadastrados para votar 34,9 milhões de colombianos, mas pouco mais de 13 milhões responderam à pergunta "Você apoia o acordo final para o término do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura?". Para ser aprovado, o "sim" precisava do voto de 13% do colégio eleitoral, ou seja, cerca de 4,5 milhões de votos.

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