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A fragilidade do Líbano

O Líbano sofre influência dos dois países que lutam pela hegemonia regional

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2017 | 05h00

O Líbano completou na quarta-feira 74 anos de independência. Mas as comemorações serviram para lembrar aos libaneses o quanto a paz, a prosperidade e o bem-estar de sua população estão prejudicados pelos interesses de países maiores e mais poderosos. Ou seja, o quanto a independência faz falta ao povo libanês.

A vistosa parada militar não escondeu a realidade de que o Líbano não possui um Exército de verdade. E os libaneses temem que, se tivesse, ele se esfacelaria no primeiro conflito entre sunitas, cristãos, xiitas e drusos, que se tornaria mais letal quanto melhor fosse seu armamento, distribuído entre as respectivas milícias.

O desfile foi mais revelador pelo que ele não mostrou: o arsenal pesado do Hezbollah, milícia e partido xiita patrocinado pelo Irã, e seus milhares de combatentes curtidos por cinco anos de guerra na Síria. Mais do que nunca, o Hezbollah é um Estado dentro do Estado.

Acima de tudo, a falta de motivo para a celebração estava estampada no rosto de seu mais ilustre espectador: o primeiro-ministro Saad Hariri. Líder da principal corrente sunita do país, Hariri acabara de voltar de um penoso périplo, que simboliza a dependência do Líbano.

Hariri renunciou ao cargo no dia 4 em Riad, para onde havia sido convocado pelo príncipe herdeiro saudita, Mohammad bin Salman.

MBS, como é conhecido, manifestou sua insatisfação com o fato de Hariri não impor resistência ao Hezbollah, que participa de sua coalizão de governo. A preocupação da monarquia saudita não é com o Líbano, mas com a projeção do Irã sobre a região por meio de seu braço armado. Além da Síria, o Hezbollah atua no Iêmen, apoiando a milícia houthi, que destituiu o presidente Abdrabbuh Mansour Hadi em 2015. A Arábia Saudita interveio militarmente no Iêmen, e executa ali uma guerra por procuração contra o Irã. No sábado da renúncia de Hariri em Riad, o governo saudita afirmou ter interceptado um míssil disparado pelos houthis contra a capital, e considerou o ataque "um ato de guerra do Irã". No Iraque, o Irã também patrocina um grupo chamado Hezbollah (“Partido de Deus”, em árabe), sem relação com a milícia libanesa.

Hariri atribuiu sua renúncia à crescente influência do Hezbollah e, por meio dele, do Irã. Não deixa de ser verdade, desde que se entenda o que ele não mencionou: a pressão saudita contra essa influência. Hariri sabe que não é possível governar o Líbano em confronto com o grupo xiita.

Sua renúncia e os rumores de que ele estaria detido em Riad fizeram soar o alarme no mundo. Os sauditas recuaram. Liberado, Hariri foi recebido em Paris pelo presidente Emmanuel Macron, que o pressionou a voltar a Beirute e reassumir o cargo, para afastar a possibilidade de um novo conflito armado na ex-colônia francesa.

Hariri passou pelo Cairo, para se reunir com o marechal Abdel-Fattah al-Sissi, que apeou a Irmandade Muçulmana do poder no Egito em 2013. A Irmandade é rival da Arábia Saudita na disputa por influência sobre o mundo sunita, e Sissi é um aliado do reino, mas se colocou do lado de Hariri e também pressionou por sua volta.

Historicamente, potências globais e regionais exploram o frágil equilíbrio demográfico do Líbano – 40% de cristãos, 27% de sunitas e outros 27% de xiitas, e 6% de drusos (uma seita muçulmana) – para disputar influência sobre a região, porta do Ocidente para o Oriente. 

O Líbano sempre foi considerado “não um país, mas uma mensagem”, por seu mosaico humano. Mas a realidade mostra que, para que esse mosaico continue intacto, é preciso que o Líbano assegure, antes de tudo, a sua condição de país.

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