Colonos israelenses desdenham de pressão

Colonos israelenses desdenham de pressão

Moradores de local marcado pela discórdia entre Israel e EUA defendem ampliação das casas e dizem viver em ''bairro'', não em ''assentamento''

Nathalia Watkins, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

Os moradores de Ramat Shlomo, em Jerusalém Oriental, não entendem porque o bairro ultraortodoxo chegou às manchetes do mundo inteiro. O local tornou-se um dos assuntos mais populares por causa do anúncio da construção de 1,6 mil casas, feito durante a visita do vice-presidente americano, Joe Biden, a Israel, no início do mês. O anúncio, e principalmente suas circunstâncias, causaram a atual tensão diplomática entre Israel e a Casa Branca.

Vestidos com os tradicionais ternos e chapéus pretos, os moradores apressam-se para as compras às vésperas da Páscoa judaica. Questionados sobre como se sentem em meio à polêmica, os moradores dizem que nem pensam sobre o assunto e recusam-se a aceitar o termo "assentamento" para classificar o bairro.

A cor bege das pedras com as quais são construídos os prédios em Jerusalém é predominante também no bairro, composto por edifícios baixos. Embora Ramat Shlomo leve o nome de assentamento, suas moradias não têm nada de temporárias.

O argumento para a construção das 1,6 mil casas é atender a demanda crescente de um bairro que já abriga 25 mil judeus. O local é atrativo pela proximidade do centro da cidade e a infraestrutura oferecida. Além disso, os apartamentos são mais espaçosos do que as construções semelhantes em Jerusalém Ocidental - eles têm em média 120 m² e custam a metade do preço de uma moradia semelhante na parte oeste da cidade, onde um apartamento de três quartos em um bairro ultraortodoxo não sai por menos de US$ 400 mil.

Mesmo assim, as famílias vivem apertadas, já que são compostas por uma média de seis filhos, o dobro da média nacional.

Assim como em outras comunidades ultraortodoxas, de forma geral, os homens em Ramat Shlomo dedicam-se ao estudo religioso e as mulheres assumem a criação dos filhos.

As 1,6 mil casas serão construídas entre Ramat Shlomo e o bairro vizinho Ramot, que também foi construído fora dos limites de Jerusalém Ocidental. "Sempre sobrevivemos às críticas internacionais. Todos sabemos que Jerusalém é indivisível", disse Eli Azar.

Apesar de dar voz à extrema-direita, a posição de Azar é comum entre a população judaica quando o assunto é Jerusalém. Muitos moradores da parte oriental até desconhecem viver em uma área reivindicada pelos palestinos para o estabelecimento de seu Estado. Mesmo o israelense médio, laico, não concorda com a divisão da cidade. Uma pesquisa divulgada esta semana pelo jornal Yediot Ahronot mostra que apenas 25% dos entrevistados reprova a expansão de Ramat Shlomo e 41% avalia que o problema foi o momento inapropriado do anúncio.

Israel capturou a parte leste da cidade na Guerra dos Seis Dias, em 1967, anexando-a mais tarde, e declarou Jerusalém sua capital "eterna e indivisível" - medida que não é reconhecida pela comunidade internacional.

Cisjordânia. Quanto aos assentamentos na Cisjordânia, o quadro é diferente. Segundo a pesquisa, 58% dos israelenses é a favor da desocupação parcial dos assentamentos em troca de um acordo de paz. Membro do Conselho Municipal de Jerusalém, Yakir Segev disse estar surpreso com o que classificou de "crítica exagerada" ao plano de expansão de Ramat Shlomo. Ele alega que a área, assim como outros grandes assentamentos, ficará sob controle israelense "mesmo que um futuro pacto divida a cidade. Por isso, a atividade não influencia o futuro das negociações de paz".

Segev acrescenta que o tema das construções sempre foi mais delicado quando se trata de bairros com população predominantemente árabe. Esta semana, um grupo de judeus de extrema direita concluiu o processo que lhes garante a construção de 20 casas em Sheikh Jarrah, bairro árabe de Jerusalém Oriental.

As casas serão construídas no lugar de um antigo hotel árabe que foi comprado por um milionário judeu em 1985. "Não fazemos discriminação política ou religiosa para conceder licenças de construção. Israel é um país democrático", afirmou Segev.

A colonização judaica de Jerusalém e da Cisjordânia é considerada um dos maiores obstáculos para a solução do conflito.

Samir Awad, analista político da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, diz que o não congelamento das construções em Jerusalém é crítico para os palestino, pois Israel é capaz de transformar a demografia da cidade e afastar palestinos de Jerusalém Oriental - mudança que considera artificial e injusta.

Intransigência

ELI AZAR

COLONO ISRAELENSE

"Sempre sobrevivemos às críticas. Todos sabemos que Jerusalém é indivisível"

YAKIR SEGEV

CONSELHEIRO MUNICIPAL

"Há muito exagero. A atividade não influencia o futuro das negociações de paz"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.