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Protestos no Irã deixam 13 mortos e governo ameaça aumentar repressão

Na maior onda de manifestações no país desde a revolução verde, de 2009, iranianos marcham contra a corrupção e para pedir a saída do presidente Hassan Rohani e do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei

O Estado de S.Paulo

01 Janeiro 2018 | 10h26
Atualizado 01 Janeiro 2018 | 21h30

TEERÃ - A onda de protestos contra o governo e a crise econômica no Irã entra hoje no 6.º dia com um rastro de 13 mortos, centenas de feridos e ao menos 300 detidos. No domingo, dia mais violento das manifestações, 10 pessoas morreram em confrontos entre manifestantes, polícia e defensores do regime. Os protestos têm reunido milhares nas ruas de ao menos 15 cidades, na maior manifestação de descontentamento com o regime desde 2009, quando milhões protestaram por reformas. 

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O estopim para as marchas teria sido o recente aumento de 40% no preço do ovo e das aves para consumo. As manifestações começaram na quinta-feira, na cidade de Mashhad, a segunda maior do país, contra o aumento do custo de vida, mas se espalharam por grandes cidades e pela capital, Teerã. 

Os manifestantes se dizem indignados com a corrupção e com as dificuldades econômicas. A economia do Irã melhorou em 2015, com a formalização do acordo nuclear com potências mundiais. A população, no entanto, não viu melhorias na economia. As taxas de desemprego permanecem altas e a inflação bateu os 10% ao ano.

Ontem, o presidente iraniano, Hassan Rohani, ameaçou os manifestantes. “O povo responderá aos agitadores e aos que descumprirem a lei, que são uma pequena minoria”, disse Rohani ao site do governo.

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Depois de cinco dias de protestos contra o governo, a Guarda Revolucionária do Irã alertou os manifestantes que apertará o cerco contra quem participar das marchas consideradas ilegais pelo regime, ameaçando usar “punho de ferro” caso a turbulência política continue. O acesso à internet foi cortado para os dispositivos móveis, e redes sociais como Instagram e Twitter, além do aplicativo de mensagens Telegram – usados como ferramentas para inflamar as manifestações – foram bloqueados. 

Vídeos postados em mídias sociais mostraram os manifestantes destruindo bancos, saqueando lojas, atacando policiais e incendiando um automóvel. Há imagens de um manifestante derrubando cartazes com a imagem do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país. 

Houve cânticos anti-Khamenei como “Morte ao ditador” e slogans como “Morte a Rohani” e “Não a Gaza, não ao Líbano, minha vida é no lrã”, em crítica ao foco do governo na política externa e nos conflitos regionais em vez dos problemas internos do país. 

A onda de protestos no Irã divide opiniões mesmo entre figuras proeminentes do reformismo no país. Para a Nobel da Paz Shirin Ebadi, as manifestações populares são apenas o princípio de um grande movimento político-social, que tem potencial para superar as históricas marchas de 2009. “Acredito que as manifestações não vão acabar logo. Me parece que assistimos ao princípio de um grande movimento de protesto que pode ir muito além da onda verde de 2009”, afirmou a advogada e pacifista iraniana ao jornal italiano La Reppublica.

O diretor do centro de estudos Iranianos do International Crisis Group, Ali Vaez, chamou os protestos de “uma explosão das frustrações reprimidas do povo iraniano sobre a estagnação econômica e política”. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, ele disse que os protestos devem ter vida breve: “Esta não é uma revolução nem um movimento. Dada a falta de liderança, organização e missão, é provável que desapareça ou seja sufocado, de maneira pacífica ou de maneira violenta.”

Críticas. Desde sexta-feira o presidente americano, Donald Trump, tem tuitado sobre a crise no país. “Irã, país número um no financiamento do terrorismo com inúmeras violações dos direitos humanos, agora bloqueou a internet para que manifestantes pacíficos não possam se comunicar”, escreveu ontem. O ministro israelense da Inteligência, Israel Katz, encorajou os protestos. “Eu apenas posso desejar sucesso ao povo iraniano na luta por liberdade e democracia.” Já o Ministério das Relações Exteriores da Rússia criticou as manifestações estrangeiras. “A interferência externa nos assuntos do Irã, que pode desestabilizar a situação, é inaceitável.” / AFP e REUTERS

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