EFE/ Andreu Dalmau
EFE/ Andreu Dalmau

'Com a eleição mudaremos de etapa na crise política'

Para especialista, pleito dividirá a opinião pública mais uma vez, mas momento pode ser mais propício ao diálogo, deixando o auge da crise para trás

Entrevista com

Pablo Simón, dr. em Ciências Políticas pela Un. Pompeu Fabra (Barcelona) e professor da Un. Carlos III (Madri)

Andrei Netto, enviado especial / Barcelona, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2017 | 14h44

BARCELONA - Doutor em Ciências Políticas pela Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, na Catalunha, Pablo Simón é hoje professor da Universidade Carlos III, de Madri. Com um duplo olhar de especialista que conhece os meandros do movimento independentista e hoje vive na capital espanhola, o especialista afirma que a crise aberta pelo secessionismo na Catalunha não acabará com a eleição de quinta-feira, mas seu pico pode já ter passado. A hora agora pode ser da flexibilidade e das negociações, e não mais ao radicalismo de ambos os lados. A seguir os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

+ Eleição na Catalunha começa com grande participação

As pesquisas eleitorais mostram um resultado muito estreito. Qual é sua análise sobre a eleição dessa quinta-feira?

Teremos de nos centrar em ao menos quatro questões importantes: se como se prognostica haverá uma participação eleitoral recorde, inclusive superior a 80%. Isso significaria que o setor independentista estaria se mobilizando de forma importante. O segundo aspecto importante é a mudança dentro do bloco independentista, já que eles estão concorrendo internamente entre ECR e Jpor Catalunha pela hegemonia. O terceiro aspecto é, no campo não independentista, é saber se Ciudadanos poderá se converter na primeira força em votos. O último aspecto é em que medida o parlamento sai com uma maioria do bloco independentista. Agora estamos em uma situação de empate técnico, com pesquisas dentro da margem de erro. O partido dos Comunes seriam o key maker.

A líder do Ciudadanos, Ines Arrimadas, pode sair vencedora, mas ao mesmo tempo não ser capaz de formar um governo. Como devemos interpretar esse resultado?

É uma possibilidade. Certamente o problema de Ciudadanos é que é muito difícil de, em caso não haver uma maioria independenista, contar com o apoio do Socialista e do PP. Ela teria de contar com o apoio dos comunes, o que é muito difícil. A ordem dos fatores altera o produto. O paradoxo é que o bloco não independentista, se chegar em primeiro lugar, pode até ser mais difícil formar uma governo. Faltaria um quarto partido.

O bloco independentista segue com chances de vitória, mas alguns catalães independentistas falam com um pouco de lamento sobre como Puigdemont conduziu o processo de independência. 

Frustradas há. Mas não significa que não votarão em partidos independentistas. Os mais críticos de Puigdemont provavelmente votarão na ERC ou em CUP. Castigaria a gestão de Puigdemont, sem mudar de lado. Isso é muito pouco provável. Uma maioria absoluta dos independentistas está em margem estreita. É um fluxo pequeno de eleitores que fará o movimento de partir de um lado a outro, abandonando o independentismo.

+ Vargas Llosa: Nacionalismo catalão

O partido de Mariano Rajoy, o PP, não vai nada bem nessa eleição na Catalunha. Isso não representa de alguma forma uma derrota para o governo espanhol?

Certamente sim. Eles estão preocupados com esse resultado potencial. Muitos ministros e até o presidente de governo têm feito campanha, mas têm muitos problemas. O candidato local é bastante impopular, inclusive entre seus partidários. E o partido está cercado ideologicamente pelo Ciudadanos, muitos eleitores acreditando que ele pode se tornar a primeira força. O PP está em 

A crise política na Catalunha chegará ao fim com as eleições?

Não acabará. É certo que com a eleição mudaremos de etapa na crise política. É importante porque um novo governo, se houver um imediatamente, não terá um mandato de ruptura feito a partir da campanha eleitoral. Será necessário formar um governo novo, que terá talvez mais flexibilidade de uma negociação com Madri. Será necessário escolher um novo presidente de governo, qual será a coalizão e quais serão as políticas públicas. Creio que poderemos descartar um nível de tensão como o que vimos em outubro. Mas o problema político de fundo na Catalunha não se resolverá nessa eleição e creio que serão necessários vários anos para que seja superado.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.