Sarah Meyssonnier/REUTERS
Sarah Meyssonnier/REUTERS

Com desemprego trazido pela pandemia, estudantes franceses dependem de doações para comer

Crise minou trabalho de meio-período, essencial para muitos universitários que dependiam dele para pagar aluguel e mensalidade e garantir a própria subsistência

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2021 | 08h00

PARIS – Todas as terças-feiras, no período noturno, a universitária marroquina Chaimae Irfaq está no saguão de sua residência estudantil em Paris, onde distribui pacotes de comida para dezenas de estudantes em frágil situação financeira. Ao final da doação, ela leva um pacote para o próprio apartamento.

Irfaq chegou à França em outubro do ano passado para concluir seu curso de Administração. Ela esperava conseguir empregos de meio período para complementar os 700 euros (aproximadamente R$ 4.500) que seu pai lhe dá mensalmente, mas a crise do coronavírus diminuiu significativamente o número de vagas, diz ela, com bares e restaurantes fechados e empresas enfrentando dificuldades financeiras.

“Se eu tivesse trabalho, não precisaria (da ajuda)”, disse ela ao se apresentar como voluntária para a instituição de caridade Les Restos du Coeur (Restaurantes do Coração). Em seu pacote há arroz, macarrão, laticínios, frutas, verduras e um pouco de carne. Uma vez por mês, são adicionados shampoo e produtos sanitários.

Estudantes em todo o mundo têm sido atingidos pela falta de empregos de meio período, do qual muitos dependem para pagar mensalidades, aluguel e despesas de subsistência. 

As instituições de caridade que distribuem alimentos em Paris - cerca de meia dúzia - afirmam que o número de estudantes que buscam ajuda aumentou desde que o governo decretou lockdown e toque de recolher noturno no ano passado. Dezenas de milhares de cestas básicas são distribuídas todas as semanas apenas na região da grande Paris, e situação semelhante ocorre em outros lugares, dizem as instituições. O governo estendeu um esquema de financiamento público que fornece refeições de um euro para os beneficiários de bolsas e o disponibilizou a todos os estudantes.

Irfaq conta que chegou a Paris com o sonho de participar de encontros enriquecedores em uma das cidades mais bonitas do mundo. Em vez disso, ela vê palestras online durante o confinamento em seu pequeno quarto. “Para ser sincera, durante a semana inteira, estou apenas esperando a terça-feira. Isso muda um pouco minha rotina", conta.

A combinação de ensino remoto e toque de recolher, que vai das 18h às 6h da manhã, estava afetando muito sua saúde mental e a de seus amigos, disse Irfaq. Três em cada quatro estudantes franceses se sentiam sozinhos em algum momento ou o tempo todo, mostrou uma pesquisa divulgada no mês passado.

Estudantes protestaram contra um governo que, segundo eles, os abandonou. Um porta-voz do governo, Gabriel Attal, disse esta semana que os alunos mais pobres receberam bolsas de emergência e que houve liberação de verba para aconselhamento psicológico. Segundo ele, o presidente queria que todos os alunos pudessem assistir às aulas pessoalmente um dia por semana.

Irfaq disse que a crise da covid-19 minou sua energia e motivação. “Agora, quando vejo meus amigos, eles estão deprimidos e se sentem solitários”, disse ela. “Até mesmo quando estamos juntos, nos sentimos solitários e ansiosos.” /REUTERS

 

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