Com acordo sobre bloqueio e apoio externo, Gaza luta para se reerguer

Quem entra na Faixa de Gaza pela fronteira israelense, primeiro passa pelos entulhos da guerra de 2008-2009 para, depois, começar a ver os sinais da ofensiva militar da última semana. A palavra "reconstrução" aqui tem sentido mais profundo: do aspecto físico, de recolocar tijolos e reerguer lugares arrasados, a uma dimensão econômica e espiritual, de retomar a vida como um dia ela foi.

ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL / FAIXA DE GAZA, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h05

No entanto, após o último ciclo de violência entre Hamas e Israel, boa parte dos moradores de Gaza parece "menos pessimista" ao falar sobre o futuro. Primeiro, em razão da solidariedade vinda de governos vizinhos durante os oito dias de conflito - Gaza recebeu um premiê e vários ministros do mundo islâmico -, algo impensável na guerra de quatro anos atrás, antes da Primavera Árabe. Segundo, o acordo de cessar-fogo prevê um abrandamento do bloqueio israelense, ainda que não esteja claro o que isso significa exatamente.

Apesar da chuva, o tradicional mercado de peixes, na sexta-feira, estava cheio. Ontem, Israel relaxou as restrições a pescadores em Gaza como parte do cessar-fogo intermediado pelo Cairo. Agora, eles podem pescar a uma distância de 6,9 quilômetros, em vez de 4,8 quilômetros - o que ainda é pouco, segundo os palestinos. Em águas rasas demais, eles só trazem sardinhas, camarões e caranguejos. Os peixes maiores vêm do Egito.

"Esse mar é farto, costumava pegar até lagostas, mas preciso de pelo menos 20 milhas náuticas (pouco mais de 37 quilômetros)", reclama Ismail Ahlam, que desistiu de pescar e hoje revende em um carrinho peixes dos colegas. "Navios israelenses abrem fogo contra os pescadores - nos últimos meses, três foram mortos. Eu fiquei com medo e parei."

Fronteira aberta. A situação no Hospital Shifa, o maior de Gaza, também era bem diferente da vivida na guerra de quatro anos atrás. Shifa tem 500 leitos, mas atende uma área onde vive mais de um milhão de pessoas, explica o doutor Ahmad Jarou, um dos responsáveis pela UTI.

"Aqui, faltam sempre produtos descartáveis, como seringas, além de medicamentos. Nossos aparelhos de tomografia e ressonância magnética não funcionam há meses, pois não encontramos peças para eles."

Nos oito dias da ofensiva, o presidente do Egito, Mohamed Morsi, abriu a fronteira e todos os pacientes em estado crítico foram levados a hospitais egípcios. Na sexta-feira, a UTI de Shifa abrigava apenas oito vítimas da violência.

"Agora, nós não temos mais aquela situação de corredores lotados com feridos, embora a nossa infraestrutura médica ainda seja bastante precária." A chave para melhorar o atendimento em Gaza, de acordo com o doutor Jarou, é a construção de mais hospitais.

Decadência. A indústria dos túneis clandestinos que ligam o território ao Egito já estava enfraquecida desde que Israel abrandou o bloqueio ao território, sobretudo após o incidente com a flotilha turca, há dois anos. Se o Egito ampliar o comércio, os contrabandistas devem decretar de vez a falência.

Um relatório da ONU publicado este ano sob o título de Gaza: um lugar onde será possível viver em 2020? alerta que dois fenômenos nefastos prejudicam a reconstrução: o desemprego, de 35% a 65%, que atinge principalmente jovens, e o fim da indústria local - 97% das fábricas fecharam ou operam com mínima capacidade desde o início do bloqueio.

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