Michael Sohn / AP
Michael Sohn / AP

Com ajuda dos EUA, Alemanha teria espionado governo da França

Escândalo de escutas no Palácio do Eliseu e no Ministério das Relações Exteriores em Paris foi revelado por imprensa alemã; NSA teria contribuído para esquema

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

30 de abril de 2015 | 19h59

O governo da Alemanha espiona regularmente o da França em colaboração com a Agência Nacional de Segurança (NSA) americana. A informação foi revelada por diferentes veículos de imprensa em Berlim e mostra a colaboração entre os serviços secretos americano e alemão para monitoramento de membros do Palácio do Eliseu, do Ministério das Relações Exteriores francês e da União Europeia. Apesar de explosivo, o tema é tratado com panos quentes pelos dois parceiros europeus. 

O escândalo foi revelado pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung, na quarta-feira, e ampliado por reportagens das redes de TV WDR e NDR, além da revista Der Spiegel. De acordo com a imprensa alemã, o Bad Aibling (BND), serviço de espionagem do governo da Alemanha, teria espionado durante vários anos países-membros da União Europeia, incluindo o parceiro fundador do bloco, a França. 


O esquema teria sido realizado graças a uma parceria com a NSA americana, a mesma agência acusada por Edward Snowden de manipular dados de milhões de cidadãos nos Estados Unidos e em vários países. O irônico é que a NSA é o mesmo órgão que espionou a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, ouvindo até mesmo as conversas que a chefe de governo manteve por telefone celular. 

À época, Merkel protestou contra os serviços secretos dos Estados Unidos afirmando a Barack Obama que "não se espiona amigos". Mas entre as fontes de informação que teriam sido monitoradas por Berlim estão altos funcionários do Palácio do Eliseu, sede da presidência da república, e também do Ministério das Relações Exteriores.

Ainda de acordo com a imprensa da Alemanha, o tráfico de informações entre Alemanha e Estados Unidos teria sido possível graças aos acordos bilaterais firmados entre diretores da BND e da NSA, sem passar pela chancelaria alemã ou pela Casa Branca. 

O assunto é tratado com o mais alto grau de discrição entre os governos da Alemanha e da França – outro país em que os serviços secretos são muito ativos e acusados de capturar informação de cidadãos sem autorização da Justiça. 

Nesta quinta-feira, em Paris e Berlim os governos tentaram colocar panos quentes sobre o escândalo. A chancelaria alemã se recusou a fazer comentários públicos sobre o caso, enquanto o Quay D'Orsay, o equivalente ao Itamaraty francês, divulgou nota na qual se limitou a afirmar "estar em contato estreito com nossos parceiros alemães sobre este tema". 

Em Bruxelas, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, outro alvo da espionagem alemã, disse depositar suas esperanças na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) em curso no Legislativo alemão sobre os excessos da espionagem dentro do país. "Eu não sei o que aconteceu", admitiu o ex-primeiro-ministro de Luxemburgo. "Mas isso deverá ser resolvido pelas autoridades alemãs, inclusive parlamentares, e nós acompanharemos o caso." 

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