Com ampla vantagem, ex-premiê se declara vencedor no Paquistão

Apuração parcial divulgada pela CNN aponta como ganhador Nawaz Sharif, que foi por duas vezes primeiro-ministro; eleição, que ontem teve 29 mortos em atentados, marca primeira transição civil

11 de maio de 2013 | 23h26

ISLAMABAD

O ex-premiê paquistanês Nawaz Sharif declarou-se vitorioso na noite de sábado, 11, quando a apuração parcial da eleição parlamentar mostrava ampla vantagem de seu partido. Se confirmado o resultado, o político ocupará o cargo pela terceira vez. É a primeira transição civil do país, que enfrentou um processo eleitoral com atentados, que só ontem mataram 29 pessoas.

De acordo com contagens parciais divulgadas pela rede CNN, o partido do ex-primeiro-ministro, a Liga Muçulmana do Paquistão (PML-N), de centro-direita, conquistaria 126 das 272 cadeiras da Assembleia Nacional. A vitória de Sharif significa um retorno triunfal para um líder político que foi deposto em golpe militar em 1999, preso e exilado depois.

"Devemos agradecer a Alá por ter dado ao PML-N outra chance de servir a vocês e ao Paquistão", disse Sharif em discurso a partidários em seu reduto eleitoral, Lahore. Ele pediu a todos os outros partidos que ajudem a resolver os problemas do país.

Em segundo lugar, estava o candidato do Movimento pela Justiça do Paquistão, o ex-jogador de críquete Imran Khan. Seu grupo – com 34 cadeiras, segundo as primeiras apurações –, foi considerado por analistas a maior surpresa na votação. O partido reconheceu a vitória do PML-N. "Eles foram o maior partido. Gostaria de parabenizá-los", disse o líder do PTI, Assad Omar, em entrevista ao canal Geo TV.

O secular Partido do Povo do Paquistão (PPP), da ex-premiê Benazir Bhutto e do presidente Asif Ali Zardari, garantia, segundo a apuração parcial, 32 postos no Parlamento – uma derrota sem precedentes para o grupo de centro-esquerda, conhecido como a maior força política do país, sobretudo na Província de Punjab.

Eleitores foram às urnas animados com a perspectiva de mudar um país que sofre com a militância do Taleban, uma economia em dificuldade, corrupção endêmica, cortes de energia crônicos e infraestrutura precária. Segundo informações preliminares da comissão eleitoral, o comparecimento às urnas teria chegado a 60% dos eleitores – em 2008, 44% foram às urnas.

Caso não se configure uma maioria clara para Sharif no Parlamento, a tendência é formação de um governo de coalizão entre os três partidos opositores – o que analistas consideram uma vitória da democracia. No entanto, teme-se também que a fragmentação do poder leve a um vácuo que pode se estender por um período indeterminado até que os partidos cheguem a um consenso sobre a formação do novo governo. Isso significaria uma ameaça à já frágil estabilidade do Paquistão.

Durante a votação, um ataque a bomba no escritório do Partido Nacional Awami (ANP) na capital comercial do país, Karachi, matou 11 pessoas e feriu cerca de 40. Pelo menos outra 18 pessoas foram mortas ontem em atentados em outros pontos do país. O Taleban do Paquistão, grupo próximo à Al-Qaeda, matou mais de 125 pessoas na violência relacionada com as eleições desde abril. O grupo, que luta para derrubar o governo apoiado pelos EUA, considera as eleições como anti-islâmicas.

Composição. Nesta eleição, pela primeira vez uma terceira via chegou com força às urnas. Em seu último comício, na noite de quinta-feira, Khan reuniu 35 mil pessoas em Islamabad, sem que ele estivesse presente. Internado desde terça-feira após cair de um palanque, ele falou ao público da cama do hospital, com imagens transmitidas ao vivo de um telão.

"Foi maravilhoso! Estavam todos muito animados e confiantes. As pessoas vestiram as cores do partido e levaram bandeiras. Foi lindo", disse a brasileira Cristina von Sprling Afridi, dona de um restaurante em Islamabad, onde vive já 15 anos. Ela é casada com o diplomata paquistanês Tariq Khan Afridi, com quem tem o filho Karim, de 18 anos. "Aqui em casa, todos votam em Khan."

Khan nunca esteve no governo ou se envolveu em escândalos políticos, ao contrário de seus opositores. Durante a campanha, subiu o tom contra a corrupção e a falta de acesso à Justiça, problemas que se tornaram endêmicos nos últimos governos. Ao mesmo tempo, manteve um discurso nacionalista e conservador que alegra o eleitorado paquistanês.

Mesmo que não conquiste assentos suficientes para estar no governo – ou não aceite formar alianças, como afirma –, Khan poderá liderar uma oposição forte, o que seria inédito no Paquistão. Os tradicionais partidos políticos se revezam no governo desde a independência do país em 1947 – exceto nos regimes militares, que tomaram o poder em três golpes. / REUTERS, COLABOROU ADRIANA CARRANCA

 

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