Andrea DiCenzo/The New York Times
Andrea DiCenzo/The New York Times

Com apoio americano, ex-inimigo dos EUA poderá definir resultado das eleições no Iraque

Partido do famoso clérigo xiita Moqtada al-Sadr parece ser o mais bem colocado na disputa eleitoral

Louisa Loveluck e Mustafa Salim / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2021 | 14h00

BAGDÁ - Iluminado por ofuscantes holofotes, o comício da campanha sadrista é uma explosão de som e cor. Apoiadores recortam os céus com bandeiras verde-esmeralda, enquanto um religioso recita as glórias do candidato por meio de pequenos alto-falantes. “Não fazemos política como os outros”, ele berra. “Votar nos sadristas nos trará de volta a esperança.”

O candidato sadrista, Hakim al-Zamili, põe a mão sobre o coração sorrindo gentilmente. Depois, faz um sinal afirmativo com a cabeça e caminha em direção ao palco. Só falta uma semana para a nossa vitória, declara diante da multidão em delírio.

Enquanto o Iraque se prepara para a eleição parlamentar do domingo, a sexta desde que a invasão liderada pelos americanos instituiu um novo sistema político, o partido do famoso clérigo xiita Moqtada al-Sadr parece ser o mais bem colocado na disputa. Conquistar a maioria dos 329 assentos do Parlamento iraquiano marcaria a culminação de anos de esforço de Sadr para consolidar o poder nas urnas, nas ruas e por toda parte do funcionalismo público.

Sadr é uma figura celebrada tanto no Iraque quanto no exterior, com seu histórico de agitação contra as tropas americanas após a invasão e a lealdade frequentemente feroz de dezenas de milhares de devotados seguidores da classe trabalhadora.

Mas ele também sabe como transformar sua imagem. Desde 2003, o clérigo transitou entre as figuras de líder sectário de milícia, figura revolucionária e um nacionalista capaz de unificar o país. Em algumas ocasiões, ele se fiou no apoio iraniano, mas atualmente rejeita publicamente a influência do mais poderoso vizinho do Iraque.

Agora, pela primeira vez, os líderes de seu movimento afirmam estar dispostos a usar sua provável dominância, projetada por pesquisas de intenção de voto, para escolher o primeiro-ministro do país.

“Atualmente, é inviável um primeiro-ministro sem o apoio dos sadristas”, afirmou Nasser Al-Rubaie, líder da ala política do movimento. Por todo o espectro, incluíndo no gabinete do primeiro-ministro Mustafa al-Kadhimi, políticos iraquianos concordam.

Ainda não se sabe se o movimento de Sadr manterá seu atual alinhamento com Kadhimi e o apoiará para um segundo mandato. A decisão final também precisaria da anuência de poderosas facções políticas apoiadas por iranianos ou curdos.

Apesar das tensões passadas de Sadr com o Ocidente, seu partido provavelmente contará com um apoio ao menos tácito de Washington.

“Eles conseguiram elevar sua legitimidade internacionalmente como um partido que joga dentro das regras do Estado. É por isso que temos visto sadristas interagindo muito mais com países do Ocidente, incluindo os EUA e os europeus”, afirmou Lahib Higel, analista do International Crisis Group. "Sadr tem se vendido como uma opção viável e um ator central da política iraquiana.”

“Considero que, neste momento, vemos Sadr como um nacionalista, que é apenas melhor que as outras alternativas”, disse uma graduada autoridade ocidental, que falou sob condição de anonimato porque não está autorizada a conversar com a imprensa.

Nos meses recentes, os sadristas adotaram uma linha mais cuidadosa do que os partidos iraquianos alinhados com o Irã, que pedem a expulsão dos 2,5 mil soldados americanos que permanecem no Iraque.

“Somos contra a presença de qualquer força estrangeira no território iraquiano. Quando se trata de apoio logístico, em relação a treinamentos, equipamentos e espaço aéreo, a questão não é política. Deixamos a decisão a respeito disso para as pessoas especializadas nesses assuntos”, afirmou Rubaie, indicando que um papel não belicoso dos militares americanos poderia ser aceitável.

Protetores dos iraquianos

Os sadristas se autodenominam protetores dos iraquianos xiitas da classe trabalhadora. O pai de Sadr, o grande aiatolá Mohammed Sadiq al-Sadr, era uma das principais forças de resistência contra o ditador sunita Saddam Hussein e foi morto por isso. Depois da invasão liderada pelos EUA, o Exército Mahdi, de Sadr, conquistou apoio popular por desafiar a ocupação americana.

Atualmente, o movimento de Sadr dá emprego a muitos apoiadores nos ministérios e empresas que controla, assim como nas fileiras de seu braço armado, Saraya al-Salam.

Os sadristas consolidaram sua influência por toda parte no governo iraquiano assumindo o controle de importantes postos no serviço público. De acordo com pesquisa do instituto Chatham House, de Londres, sadristas leais ocupam a maior parte dessas posições, conhecidas como “graus públicos”, que, por sua vez, permitiram a eles desviar vastas quantias de recursos públicos para atender aos propósitos de seu movimento.

Para garantir que o dinheiro continue fluindo, os sadristas assumiram o controle do organismo que preenche as postos de trabalho no serviço público, endossando, certas vezes, ministros tecnocratas sem filiação partidária que, na prática, detêm menos autoridade do que servidores que lhes são subordinados.

“Já no primeiro dia percebi que estava lá só para assinar pilhas de contratos à minha espera”, afirmou um desses ex-ministros, sob condição de anonimato por preocupações relativas à sua segurança. “Eles só queriam que eu desse o carimbo.”

Ao longo dos anos, o grupo sadrista foi acusado por autoridades do governo e entidades de defesa de direitos humanos de abusos indiscriminados. Durante a guerra civil, o Exército Mahdi organizou esquadrões da morte. Zamili, o candidato sadrista, foi preso por supostamente usar seu cargo de ministro da Saúde para desviar recursos para assassinatos e sequestros sectários. Mais recentemente, o Saraya al-Salam foi acusado de extorquir e assassinar oponentes políticos.

Os sadristas são a força dominante no Ministério da Saúde e, há alguns meses, Sadr se retirou brevemente da campanha eleitoral em meio à indignação pública que se seguiu ao incêndio de dois hospitais, em Bagdá e em Nasiriyah, no sul iraquiano, que destruíram alas de tratamento de pacientes infectados pelo coronavírus. Corrupção em contratações públicas, cuja culpa recai sobre os sadristas, deixam rotineiramente grandes hospitais sem equipamentos contra incêndio, de acordo com pesquisadores. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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