Com apoio da Rússia, Irã colocará em marcha sua primeira usina nuclear

Energia atômica. Especialistas russos e iranianos começam no sábado a abastecer reator da central de Bushehr; para o governo americano, que se opunha à parceria, Teerã não precisará mais enriquecer urânio, já que Moscou fornecerá o combustível

THE GUARDIAN, REUTERS e AP, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

Após anos de adiamentos, a Rússia começará a abastecer com urânio o reator da usina nuclear de Bushehr, sul do Irã, no próximo sábado, informaram funcionários russos ontem. O processo, que levará de duas a três semanas para ser concluído, é um passo-chave para a ativação do reator, apesar de que ele ainda não será considerado operacional.

A Casa Branca disse ontem que a abertura da primeira central nuclear do Irã com a ajuda da Rússia demonstra que Teerã "não tem necessidade de dispor de uma capacidade de enriquecimento de urânio, já que a Rússia fornecerá o combustível para a central de Bushehr". O Ocidente teme que o Irã possa estar enriquecendo urânio para armas nucleares, não para obter energia, como alega.

"Será um passo irreversível", disse Sergei Novikov, porta-voz da corporação nuclear estatal russa Rosatom. "Neste momento, a central nuclear de Bushehr será certificada como uma instalação de energia atômica."

Em março, em visita a Moscou, a secretária americana de Estado, Hillary Clinton, criticou os planos da Rússia de ativar a usina de Bushehr, qualificando-os como prematuros por causa das suspeitas do Ocidente com relação ao programa nuclear iraniano.

O Conselho de Segurança da ONU aprovou em junho a quarta série de sanções contra o Irã por causa de seu programa de enriquecimento de urânio, apesar de Brasil e Turquia terem chegado a um acordo com Teerã para a troca de urânio por combustível para um reator de pesquisas médicas.

Especialistas nucleares dizem que Bushehr não contém tecnologia sensível, por isso não foi incluída nas resoluções da ONU. Além disso, a usina não tem ligação com o programa de enriquecimento de urânio do Irã, visto como uma ameaça.

Moscou destaca que o projeto tem sido supervisionado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e o Irã assinou um compromisso de enviar todo o combustível usado de Bushehr de volta para a Rússia para reprocessamento, acabando com qualquer possibilidade de que o material seja usado em armas nucleares. O Irã convidou a AIEA para supervisionar o abastecimento do reator.

Bushehr, a primeira usina nuclear do Irã, começou a ser construída em 1975 por várias companhias alemãs. Elas abandonaram o projeto por causa do embargo americano imposto ao fornecimento de tecnologia ao Irã, depois da Revolução Islâmica, em 1979, e a subsequente tomada de reféns na Embaixada dos EUA em Teerã. A Rússia concordou em construir o reator de 1.000 megawatts 15 anos atrás.

Adiamentos marcaram o projeto de US$ 1 bilhão, com a Rússia citando problemas técnicos e diplomatas dizendo que Moscou usou a usina para melhorar suas relações com Teerã. O governo iraniano teve de suportar os adiamentos, pois não tinha outros potenciais parceiros nucleares.

Os adiamentos também deram à Rússia contínua influência sobre o Irã em meio aos esforços internacionais para tentar conter o programa de enriquecimento de urânio de Teerã. Apesar da oposição inicial à participação da Rússia na usina de Bushehr, Washington e seus aliados concordaram em remover as referências ao projeto nas sanções aprovadas na ONU em 2006, em troca do apoio de Moscou às punições contra Teerã.

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