Ronaldo SCHEMIDT / AFP
Ronaldo SCHEMIDT / AFP

Com aumento da pobreza em razão da covid-19, famílias passam a ocupar terras no sul de Buenos Aires

Sem poder pagar aluguel ou comprar uma casa, argentinos passam a viver em barracas em território sem dono de Guernica

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 04h00

BUENOS AIRES - Ao ar livre ou sob barracas improvisadas: cerca de 2.500 famílias desafiaram a Justiça - e a covid-19 - há mais de um mês, quando ocuparam terras no sul de Buenos Aires, a província mais populosa do país, onde a pandemia ataca com mais virulência.

"Aqui há pessoas sem trabalho, famílias que não podiam mais pagar o aluguel, e outras, cansadas de viverem amontoadas, ou em situação de rua", resume Yamila, uma das ocupantes, em conversa com a AFP. Ela mesma, uma jovem de 25 anos e assistente social desempregada, espera sair dessa situação. A crise econômica a levou de volta para a casa da mãe, onde mora com oito irmãos. 

Distribuídos por mais de 100 hectares de terrenos baldios em Guernica, no segundo cordão da periferia sul de Buenos Aires, muitos usam máscaras e cada grupo familiar mantém a distância um do outro o melhor que pode. Um grupo de advogados entrou com uma liminar que suspendeu a ação de despejo apresentada contra essas famílias.

Com 15 milhões de habitantes, Buenos Aires é a província mais populosa e rica do país. Também é a que apresenta mais contraste socioeconômico, já que quase um em cada dois habitantes é pobre.

Seus bairros mais populosos, aqueles que abrangem a capital argentina, formam com ela a região metropolitana, onde ocorreram 90% dos quase 400 mil casos de coronavírus na Argentina, com mais de 8 mil mortes.

Lixão ocupado

"Eu nasci e cresci em Guernica. Desde que me lembro havia um lixão aqui", conta Yamila, apontando para o local, onde agora estacas demarcam um lote improvisado.

No dia 20 de julho, um grupo de pessoas começou a remover o matagal, afugentar os ratos e a se acomodar com quase nada. Uma semana depois, havia milhares. "A crise econômica está muito forte e se agravou com a pandemia. Muitos de nós que pagamos aluguel tivemos que escolher entre pagar ou comer", desabafa.

Em março, o governo de Alberto Fernández impôs restrições sanitárias para impedir o avanço da pandemia que, embora tenha abrandado a curva de contágio, destruiu os braços mais precários da economia. Entre os ocupantes do prédio, estão ex-empregadas domésticas, pintores, pedreiros e jardineiros. "Eles foram trabalhadores até que tudo começou, e eles caíram em desgraça", completou Yamila.

Jael tem 38 anos e cinco filhas. Eles sobrevivem com o que seu marido ganha vendendo doces no trem, em meio ao número reduzido de passageiros pela quarentena.

Quando soube da ocupação, ele trouxe o que pôde em um carro em ruínas, única propriedade da família. "Viemos com o carro carregado de sonhos, de esperança. Trouxemos o colchão, os cobertores e nos instalamos primeiro com uma pequena barraca (de lona) de piscina. Depois, um tapete que encontramos na rua", explica ele, ao lado de sua "casa", um barraco improvisado.

Antes, moravam com a sogra e com outros 14 parentes. "Dormíamos na sala de estar em um colchão de dois lugares: nós e as meninas. Éramos quase 22 para comer, não aguentávamos mais", afirmou ele.

Uma casa própria é algo completamente fora de alcance. "Voltamos chorando, não dava para alugar. Com a pandemia, o trabalho não é como antes. Às vezes, temos 900 pesos (US$ 1,16) por dia. Antes, meu marido ganhava 2 mil (pesos)", acrescentou.

Solidariedade

No meio das barracas improvisadas e precárias, a fumaça sobe em uma panela de solidariedade. Daqui a pouco, haverá um cozido para compartilhar. "A Argentina não está cheia de gente rica, tem muita gente pobre e trabalhadora que quer progredir", diz Jael. 

Com 44 milhões de habitantes, a pobreza chega a quase 40%, mas ultrapassa 50% em algumas regiões. O país está em recessão desde 2018, e sua economia terá uma queda de mais de 10% este ano, de acordo com estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A propriedade Guernica não tem dono. Pelo menos nenhum daqueles que a reivindicam como sua conseguiu provar a titularidade na Justiça.

"Se não há dono, não há usurpação, então não há crime", afirma Eduardo Soares, do Sindicato dos Advogados e Advogadas, que representa os ocupantes de Guernica e de outras tomadas de terras ocorridas na província de Buenos Aires durante a pandemia.

Uma lei provincial aprovada em maio suspende as "execuções, ou lançamento, coletivos" até 30 de setembro. Antes do fim do prazo, os advogados aguardam uma decisão judicial que proteja as quase 3 mil crianças que permanecem em Guernica. "Somos famílias. Queremos um pedacinho de terra para morar. Se falta o prato de comida, pelo menos temos um teto. Hoje, na Argentina, isso é muito", diz Yamila. / AFP

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