AP Photo/Vincent Thian
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Com bloqueio nacional na Malásia, bandeiras brancas na janela servem para pedir ajuda

Medida para conter avanço da covid-19 impede que pessoas saiam de casa, exceto para comprar comida e itens de necessidade básica

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2021 | 20h00

KUALA LAMPUR - Quando Mohamad Nor Abdullah colocou uma bandeira branca fora de sua janela durante a noite, ele não esperava a rápida manifestação de apoio que chegaria. Na manhã seguinte, dezenas de estranhos bateram a sua porta, oferecendo comida, dinheiro e encorajamento.

O bloqueio nacional na Malásia para conter a propagação do novo coronavírus foi ampliado no sábado 03, proibindo as pessoas em certas áreas de deixar suas casas, exceto para comprar alimentos e outros itens de necessidade básica.

Com isso, Mohamad Nor ficou desesperado. O malaio ganha a vida vendendo nasi lemak embalado, um prato popular de arroz de leite de coco com condimentos, em uma barraca de beira de estrada todas as manhãs, mas a verba desapareceu e a ajuda do governo foi insuficiente.

A campanha da bandeira branca que surgiu nas redes sociais na semana passada visa justamente ajudar pessoas como Mohamad Nor, que tem 29 anos e nasceu sem braços. Por acaso, viu a campanha no Facebook e resolveu procurar ajuda.

“Foi tão inesperado. Tantas pessoas estenderam a mão para me ajudar, apoiar e também me encorajar”, disse Mohamad Nor, sentado em seu quarto em meio a caixas de biscoitos, arroz, óleo de cozinha e água que foram doados a ele. O malaio contou que as pessoas ainda se ofereceram para ajudar a pagar o aluguel do quarto e a ajuda deveria ser suficiente para mantê-lo nos próximos meses.

A campanha #benderaputih começou como uma resposta da sociedade malaia ao aumento dos suicídios, que se acredita estar ligado às dificuldades econômicas causadas pela pandemia. A polícia registrou 468 suicídios nos primeiros cinco meses deste ano, uma média de quatro por dia. No ano passado inteiro, foram registrados 631.

Postagens nas redes sociais orientavam as pessoas a hastearem uma bandeira branca ou um pano para sinalizar que precisavam de ajuda imediata "sem ter que implorar ou sentir vergonha". Muitos varejistas de alimentos e até personalidades responderam com ofertas de ajuda e muitos malaios dirigiram pela vizinhança para encontrar bandeiras brancas.

Economia em queda

Milhares de pessoas perderam seus empregos desde que a Malásia decretou restrições por conta da covid-19, incluindo um estado de emergência que suspendeu o funcionamento do Parlamento desde janeiro. O rígido bloqueio nacional imposto em 1º de junho é o segundo em mais de um ano.

A Malásia tem 778 mil casos de covid-19 confirmados e mais de 5.400 mortes.

Relatos de famílias recebendo ajuda rápida após hastearem uma bandeira branca se espalharam. Uma mãe solteira e sua filha adolescente que sobreviveu comendo biscoitos por dias foram alimentadas por vizinhos, um vendedor ambulante endividado à beira de terminar sua vida recebeu ajuda em dinheiro para começar de novo, uma família de refugiados de Mianmar que sobrevive com apenas uma refeição por dia recebeu instantaneamente suprimentos de comida.

Enquanto muitos aclamam o movimento da bandeira branca como uma demonstração de unidade e solidariedade, nem todos concordam.

Um legislador de um partido islâmico, que faz parte da coalizão governista, causou indignação do público ao dizer às pessoas que orassem a Deus em vez de agitar uma bandeira branca em sinal de rendição. Um ministro-chefe de Estado classificou a campanha como propaganda contra o governo do primeiro-ministro Muhyiddin Yassin.

Manifestantes contrários ao governo lançaram, então, uma campanha da bandeira preta no fim de semana, com legisladores da oposição e outros exibindo bandeiras nas redes sociais para exigir que o primeiro-ministro renuncie, pelo fim da emergência e pela reabertura do Parlamento. 

A polícia, entretanto, disse que está investigando a campanha por sedição, malícia pública e uso indevido das instalações da rede para fins ofensivos. / AP

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