Evelyn Hockstein/REUTERS
Evelyn Hockstein/REUTERS

Com ‘boicote diplomático’ à Olimpíada, Biden busca uma posição intermediária

Medida agradou até republicanos; outros países também aderiram à iniciativa

Anthony Faiola, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2021 | 20h00

Boicotes a Olimpíadas tendem a não funcionar. O realizado em 1956 por Espanha, Suíça e Países Baixos em razão da invasão soviética à Hungria teve baixo impacto geopolítico. A maioria dos aliados europeus de Washington não acompanhou o boicote do presidente Jimmy Carter aos Jogos de 1980, em Moscou, minando seu objetivo de isolar os soviéticos ao mesmo tempo que frustrou sonhos de medalhas dos atletas americanos.

Frente à Olimpíada de Inverno de 2022, em Pequim, o presidente Joe Biden está adotando uma tática diferente. Na semana passada, a Casa Branca anunciou que nenhuma autoridade do governo dos Estados Unidos comparecerá aos Jogos, ainda que os atletas americanos possam competir. O “boicote diplomático” tem como objetivo protestar contra os abusos de direitos humanos praticados pelo governo chinês, especialmente seu tratamento aos uigures na Província de Xinjiang. A China é acusada de encarcerar mais de 1 milhão de uigures em severos campos de “educação política” e prisões, enquanto doutrinam seus filhos e torturam prisioneiros — acusações que Pequim nega.

Não é a primeira vez que um líder mundial se abstém de participar de um evento olímpico organizado pela China para mandar uma mensagem, mas o esforço desta vez é o mais abrangente. Depois que os EUA anunciaram seu boicote diplomático, na semana passada, Nova Zelândia, Reino Unido, Austrália, Canadá e Kosovo acompanharam a posição americana. Dias antes do anúncio de Washington, representantes de altos funcionários do governo da Lituânia, segundo relatos, afirmaram que as autoridades de seu país não compareceriam.

Ao adotar uma posição que alguns críticos qualificaram como intermediária, Biden e os outros líderes podem, contudo, ter um objetivo além. Boicotes totais, afirmam especialistas, são instrumentos bruscos, que com frequência prejudicam mais os países que boicotam do que os países boicotados. Atletas de elite são furtados de janelas de desempenho máximo para tentar conquistar medalhas. Para piorar as coisas, fissuras profundas podem ser abertas entre os políticos que declaram os boicotes e competidores, autoridades domésticas do esporte, meios de comunicação, patrocinadores e telespectadores de seus países, que são prejudicados com essas decisões.

Quando boicotes, ou ameaças de boicotes, tornam-se agentes de transformação — como em 1968, quando países africanos prometeram não comparecer aos Jogos caso a África do Sul do apartheid não fosse bloqueada, como, por fim, ocorreu — isso acontece normalmente por conta de uma adesão contundente e objetivos específicos relacionados ao esporte, argumentou no Post Heather Dichter, professora do Centro Internacional para História e Cultura Esportiva da Universidade De Montfort, em Leicester, Inglaterra.

Ainda que um boicote diplomático possa ser tão ineficiente quanto um boicote total, a manobra cumpriria um propósito mais específico: demonstrar desaprovação para conscientizar as pessoas sobre um problema — neste caso, os graves abusos de direitos humanos praticados pelo governo da China — sem penalizar atletas.

“O que Biden está fazendo, em vez de abrir a guarda para críticas por punir atletas de seu país mais do que o governo chinês, é mandar um sinal diplomático de desaprovação”, disse-me recentemente John Soares, professor da Universidade de Notre Dame e estudioso de política e Olimpíadas. “Mesmo que isso não mude as coisas da noite para o dia, serve de aviso ao governo chinês. E talvez você consiga gradualmente influenciar alguma mudança, já que regimes que não costumavam nem falar em direitos humanos começam pelo menos a falar sobre isso.”

O esforço do governo Biden pode não avançar muito se mais países não o seguirem nessa posição. Mas a adesão internacional até este momento — longe de ser contundente — também sublinha o risco de que Washington poderia ver ainda menos países ao seu lado caso tivesse optado por um boicote total, o que seria potencialmente embaraçoso para os americanos; talvez mais do que para a China. A rádio Voz da América (VOA) notou que a Noruega, potência dos esportes de inverno, não se juntará à manobra dos EUA, nem França e Itália, seus aliados na Otan. Governos do Leste Europeu como Polônia e Hungria, com registros deploráveis de direitos humanos e ávidos para cortejar a China como parceiro econômico, também estão ignorando o boicote.

“Se isso não passar do que os chineses às vezes qualificam como um ‘clique anglo- saxão’, se a vasta maioria dos cerca de 100 países que participarão não seguir os EUA ou demorar demais para seguir, então o boicote diplomático terá menos impacto”, afirmou na semana passada ao serviço em mandarim da VOA Susan Brownell, professora de antropologia da Universidade de Missouri-St. Louis, especialista em esportes na China e Jogos Olímpicos.

A resposta oficial de Pequim, noticiou minha colega Lily Kuo, é que a China pouco se importa com o boicote de Biden e que autoridades americanas, de qualquer maneira, não haviam sido convidadas para o evento. Mas em uma entrevista coletiva, o porta-voz do Ministério do Exterior, Zhao Lijian, soou, sim, contrariado, ameaçando os EUA ao afirmar que Washington “pagará o preço de seu comportamento  equivocado”.

Como uma ferramenta de conscientização, o boicote diplomático pode já estar funcionando. Zumretay Arkin, uma ativista uigur, disse-me recentemente que tinha a esperança que os EUA aplicassem um boicote total aos Jogos, “porque, do nosso ponto de vista, genocídio deveria ser inadmissível para a comunidade internacional”. Mas, ainda assim, ela considerou a decisão de Biden uma importante vitória, que subitamente alçou os uigures ao topo da agenda da discussão global. Inicialmente, a China negou a existência dos campos de detenção de uigures, mas posteriormente admitiu — qualificando os locais como centros vocacionais para o combate ao extremismo. No fim de 2019, noticiou a agência Reuters, a China afirmou que todas as pessoas internadas nos campos tinham “se graduado”.

“Conseguimos algumas manchetes antes, mas desde o anúncio do boicote esse movimento é contínuo”, afirmou Arkin. Ela continuou: “Agora, pessoas que nunca souberam que os uigures existiam estão escutando a nossa voz. Eu qualificaria isso como uma vitória.”

Chefes de Estado já usaram ausências de Olimpíadas para mandar mensagens de descontentamento. A ex-chanceler Angela Merkel não compareceu à Olimpíada de Verão de Pequim, em 2008, e graduadas autoridades alemãs não foram à pomposa Cerimônia de Abertura — apesar de Berlim ter insistido que sua ausência não deveria ser vista como um “boicote" relacionado à repressão da China no Tibete. Donald Tusk, então primeiro-ministro da Polônia, fez uma observação mais sutil a respeito de ausências de autoridades em eventos de abertura de Jogos. “A presença de políticos na abertura de Olimpíadas parece inapropriada”, afirmou Tusk na época. “Não pretendo participar.”

Líderes também encontraram outras maneiras de usar Olimpíadas para enviar mensagens políticas. O ex-presidente Barack Obama nomeou Billie Jean King e Caitlin Cahow, atletas abertamente gays, a posições proeminentes na delegação olímpica dos EUA enviada para a Olimpíada de Inverno de 2014 em Sochi, na Rússia, manobra amplamente vista como um disparo contra as políticas antigay do presidente Vladimir Putin.

Ainda assim, especialistas ainda consideram uma novidade o “boicote diplomático” amplificado deste ano, e Biden está ganhando elogios vindos de rincões improváveis por desenvolver essa manobra.

A agência de notícias Baptist News Global, com base na Flórida, opinou que “uma coalizão mais ampla do que o normal entre grupos de defesa de liberdade religiosa e direitos humanos está louvando o anúncio do governo Biden, de 6 de dezembro, de que os EUA não enviarão missão diplomática à Olimpíada de Inverno de 2022, em Pequim”.

Meus colegas recentemente notaram que até mesmo alguns dos mais conhecidos republicanos críticos de Biden, se não todos, elogiaram a decisão. O senador Ted Cruz (republicano do Texas) — que dificilmente apoia posições de Biden — reagiu contra pedidos de alguns republicanos pelo boicote total. “Não concordo com o que algumas pessoas estão pedindo, que é um boicote aos nossos atletas, que impede nossos atletas de ir à Olimpíada”, afirmou ele durante uma entrevista no rádio, semana passada. Ele acrescentou: “Acredito que há jovens homens e mulheres que passaram anos, décadas, treinando e se preparando para a Olimpíada. E não acho justo eles serem prejudicados.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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