Mariana Greif/Reuters
Mariana Greif/Reuters

Com Bolsonaro na posse, Lacalle Pou assume o Uruguai

Novo líder uruguaio é conservador e pode ser aliado do Brasil em temas regionais, mas não é radical e deve fugir de pautas ideológicas

Jussara Soares, enviada especial, O Estado de S.Paulo

29 de fevereiro de 2020 | 21h35

MONTEVIDÉU - Luis Alberto Lacalle Pou assume neste domingo a presidência do Uruguai em cerimônia que será acompanhada por Jair Bolsonaro. Aos 46 anos, ele chega ao poder em meio ao aumento dos índices de criminalidade e de economia estagnada – fatores que contribuíram para a derrota da Frente Ampla, partido de esquerda que dominou a política uruguaia nos últimos 15 anos. 

Bolsonaro desembarca neste domingo em Montevidéu em busca de um aliado regional. Em Montevidéu, porém, a perspectiva é de que o novo presidente seja pragmático, busque aproximação comercial, mas se mantenha distante das pautas ideológicas. O posicionamento se justifica. Bolsonaro é mal visto pela população uruguaia e está mais à direita que Lacalle Pou.

Associar-se ao colega brasileiro, portanto, traria sérios prejuízos internos para a governabilidade do país. Advogado, filho do ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-1995), o novo presidente do Uruguai é conservador, mas não é radical. Foi Lacalle Pou quem apresentou o primeiro projeto de legalização do cultivo para consumo pessoal de maconha na América Latina, em 2010.

Ele também propôs a união estável entre pessoas do mesmo sexo como alternativa ao casamento e até votou em favor de que as pessoas trans fossem reconhecidas pela identidade que escolheram – e não pela imposta no nascimento. Na campanha, ele rejeitou apoio de Bolsonaro e prometeu não recuar na chamada “agenda dos direitos”, que inclui a descriminalização do aborto – ainda que não tenha apoiado a lei quando esteve no Parlamento.

Essas posições pouco convencionais para um conservador foram decisivas para que Lacalle Pou vencesse o esquerdista Daniel Martínez, da Frente Ampla – ainda assim, a vitória foi apertada, por menos de 29 mil votos (pouco mais de 1%).

Logo após vencer as eleições, ele disse que “não faria parte do clube de amigos com base em ideologia, nem de um lado, nem do outro”.

Lacalle Pou, no entanto, aposta no comércio exterior para dar uma guinada liberal, dinamizar o setor produtivo, recuperar a falta de confiança dos mercados e melhorar a economia. Antes mesmo de começar, seu governo anunciou uma desvalorização gradual do peso uruguaio para estimular as exportações. Após a posse, ele pretende adotar medidas para atrair mais investimentos estrangeiros. 

“Ele terá uma relação pragmática em questões importantes para o Uruguai, seja com Brasil, Argentina, EUA ou China”, afirma Mauricio Rabuffetti, colunista e autor de José Mujica – a Revolução Tranquila. “Primeiro, porque ele não vai se aproximar ideologicamente de ninguém. Segundo, porque não seria bom para ele a imagem muito próxima de Bolsonaro, que não tem uma boa avaliação no Uruguai.” 

Aliado regional

Apesar disso, o governo brasileiro vislumbra uma melhora das relações bilaterais e aguarda que o Uruguai se torne uma voz aliada contra Nicolás Maduro, na Venezuela. “Já recebemos indicações de que vai haver mudança de posição em relação a temas centrais para o Brasil na região, como Venezuela e Bolívia. Imagino que isso tenha um impacto na atuação do Uruguai na OEA”, disse o embaixador Pedro Miguel da Costa e Silva, secretário de negociações regionais nas Américas.

“O novo governo será uma mais uma voz de pressão contra a Venezuela, mas será do tipo e do estilo que o governo Bolsonaro quer? É muito difícil, porque a política no Uruguai é muito mais gradualista”, observa o cientista político Camilo López Burian, que também aposta em um atuação mais calculada do novo presidente. / COLABOROU PAULO BERALDO 

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