Daniel LEAL-OLIVAS / AFP
Daniel LEAL-OLIVAS / AFP

Com Brexit consumado, Reino Unido rediscute nacionalismo e imigração

Após 11 meses de negociações complexas, britânicos começam uma nova relação com a União Europeia, mas ainda enfrentam incertezas econômicas, insatisfações políticas e graves desafios internos causados pelo divórcio traumático

Marina Izidro / Especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2021 | 04h00

LONDRES - Depois de 11 meses de negociação e quatro anos de espera, o Reino Unido começou uma nova relação com a União Europeia. O acordo firmado entre Londres e Bruxelas, no entanto, marca o início de uma nova fase para o governo britânico, que terá o desafio de conter nacionalismos internos e manter as promessas feitas no plebiscito de 2016, principalmente sobre imigração. 

Em junho de 2016, quando 52% dos britânicos votaram a favor da saída da União Europeia em um plebiscito, o irlandês John Cotter morava na Inglaterra e tinha um emprego estável. No entanto, ficou tão decepcionado com o Brexit que decidiu sair do país. No ano seguinte, mudou-se com mulher e filha para a Holanda, onde ficou por dois anos.

“Fiquei extremamente cansado do Reino Unido. O resultado do plebiscito foi traumático. O Brexit deixou muitas pessoas se sentindo deslocadas. Havia um sentimento de que não éramos queridos”, disse Cotter, em entrevista ao Estadão.

“Quando morei na Holanda, trabalhei com europeus de países como Alemanha e Romênia. Muitos colegas me diziam que não gostariam de morar no Reino Unido porque havia a sensação de que era um país hostil aos estrangeiros. Acho que essa mensagem se espalhou e isso é muito negativo.”

A questão dos imigrantes foi um dos componentes da campanha a favor do Brexit. Todos os meses, o instituto Ipsos Mori publica uma pesquisa com as dez maiores preocupações dos britânicos. Durante o plebiscito, a imigração foi a primeira da lista. 

O Brexit entrou em vigor em 31 de janeiro de 2020, seguido por um período de transição que terminou no dia 31. Entre as mudanças causadas pela saída da UE, os britânicos perderam o direito à livre circulação de pessoas, que existe entre os países do bloco.

Europeus também podiam viver e trabalhar livremente no Reino Unido. Agora, quem permanecer por mais de 90 dias precisará de visto.

A alemã Maike Bohn, há 27 anos no país, é uma das fundadoras do the3million, organização que defende os direitos dos europeus que moram no Reino Unido. Quando o grupo foi criado, depois do plebiscito, a estimativa era de que 3 milhões de imigrantes da UE viviam no país. Segundo dados oficiais, hoje são quase 4 milhões.

Os que se mudaram para o Reino Unido até o dia 31 podem ficar, mas precisam se cadastrar junto ao governo britânico e provar que moram no país. Para Bohn, o processo não é fácil, principalmente para os idosos e para quem não é fluente em inglês. 

“Ouço histórias como: ‘minha mãe está morrendo e preciso vê-la, mas temo viajar e não ter os documentos de que preciso’.  Tentamos amenizar os medos dessas pessoas. A angústia delas me toca muito. Um italiano, chef de cozinha, perdeu o emprego por causa do coronavírus. Ele foi a uma agência de empregos, mostrou a identidade italiana, os documentos exigidos pelo governo e disseram que não era o suficiente, não aceitaram. Ele está desesperado por trabalho”, disse Bohn.

“Acho que há mais confusão agora do que na época do plebiscito. Muitos empregadores não sabem se podem contratar um europeu. Há um pouco de pânico. Acho que veremos muita discriminação de empregadores, de quem aluga apartamentos e precisar lidar com estrangeiros que ainda não puderem provar seu status de imigração.” 

Outra medida adotada pelo governo britânico foi deixar o Erasmus, um programa de intercâmbio entre universidades europeias. Cotter foi um dos participantes. Em 2002, aos 20 anos, ele estudou na Alemanha. “Foi transformador. Foi minha primeira grande experiência fora do meu país. A Irlanda é uma ilha muito pequena e eu não sabia muito sobre outras culturas. Conheci pessoas de todos lugares da Europa e do mundo”, afirmou. 

“O fim do Erasmus é triste, porque vai tirar dos jovens britânicos essa oportunidade. Acho até difícil colocar o que sinto em palavras. Tenho dois filhos pequenos na Inglaterra e isso me faz pensar no futuro, em qual será a opção para eles quando forem para a universidade”, disse Cotter, que se formou em direito e é professor.

Entre 2014 e 2020, 100 mil estudantes britânicos participaram do Erasmus. O primeiro-ministro, Boris Johnson, prometeu que um novo programa será criado para incluir também outras universidades ao redor do mundo, mas ainda não deu detalhes.

Em 2016, o slogan da campanha em favor da saída da UE falava em “retomar o controle”. Ao anunciar o acordo de comércio firmado com os europeus, na véspera de Natal, o premiê usou um tom parecido.

Para Mike Savage, professor de sociologia da London School of Economics, o Brexit despertou debates sobre questões como nacionalismo e a identidade britânica. 

“Os britânicos sempre tiveram uma relação ambivalente com o restante do continente. Desde que entraram na UE, nos anos 70, nunca houve uma sensação de pertencimento”, disse Savage. “Como o Reino Unido se tornou um país dividido nos últimos 30 anos, as pessoas que não alcançaram prosperidade econômica ficaram com raiva e foram mobilizadas por outras da elite, como Boris Johnson. Elas disseram que a vida seria melhor fora da UE. É nacionalismo. E algo que remete ao modelo imperialista de que os britânicos estariam acima da Europa.”

Plebiscito de independência

Em 2016, a maioria da Inglaterra e do País de Gales votou pela saída, enquanto Escócia e Irlanda do Norte foram em favor da permanência no bloco. A primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, já disse diversas vezes que quer realizar um novo plebiscito de independência da Escócia. Para Savage, o Brexit, em vez de unir, pode rachar a nação.

“Pesquisas mostram que o Brexit causará uma maior polarização econômica e quem deve sofrer é justamente quem votou a favor dele. É muito provável que a Escócia se torne independente daqui a três ou quatro anos, e o que isso significa para o projeto do Reino Unido é incerto. Talvez leve o País de Gales a também querer sua independência. Será problemático”, disse.

Este ano, o Reino Unido, a quinta maior economia do mundo, ocupa a presidência rotativa do G-7 e será sede da COP-26, Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas. A pandemia ainda assusta, mas a campanha de vacinação, que começou em dezembro, trouxe esperança. 

Ao recuperar a capacidade de soberana de decisão, Johnson pode começar a mostrar, já em 2021, qual lugar o Reino Unido fora da UE deseja ocupar entre as potências mundiais. O premiê, no entanto, não pode esquecer dos problemas que tem dentro de casa.

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