Bloomberg photo by Chris Ratcliffe
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Com Brexit em pauta, europeus viram foco de eleições regionais britânicas

Apenas em Londres, 1,1 milhão de cidadãos do continente têm direito a voto na disputa, marcada para daqui a três meses

Célia Froufe, CORRESPONDENTE / LONDRES, O Estado de S.Paulo

21 Fevereiro 2018 | 11h33

LONDRES - A menos de três meses das eleições regionais, a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), o Brexit, se transformou num dos maiores temas das campanhas. Num país que ainda se comunica fortemente pelos envios postais físicos, as cartas e cartões dos partidos sobre a corrida eleitoral entopem as caixas dos correios dos moradores. Principalmente das casas em que há algum morador europeu de fora da Inglaterra e  pode ter a oportunidade de votar nas eleições locais pela última vez, já que o divórcio está previsto para março do ano que vem e as regras sobre os direitos dos cidadãos do resto do continente ainda não foram definidas. Números oficiais dão conta de que há 1,1 milhão de cidadãos europeus apenas em Londres aptos a votar nas eleições de 3 de maio.

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Basicamente, como em qualquer lugar, os partidos da oposição criticam nesses comunicados o trabalho do governo no município ou região, enquanto os aliados defendem suas atuações e citam problemas que podem passar a ser enfrentados pelos eleitores se outros partidos forem escolhidos para substituí-los. Mas, desta vez, o debate já extrapolou questões municipais e ganha cada vez mais uma cor nacional.

As duas maiores legendas britânicas são o Partido Conservador, da primeira-ministra Theresa May, e o Partido Trabalhista, liderado por Jeremy Corbyn. Correndo por fora estão os demais, como o Partido de Independência do Reino Unido e o Liberal Democratas. Este último foi direto ao ponto do Brexit e enviou um cartão inspirado no Dia dos Namorados (Valentine's Day, comemorado em fevereiro na maior parte da Europa) com a frase: "Nós amamos (representado por um coração) a UE. Feliz Dia dos Namorados". Ao fundo, a estampa da bandeira britânica.

"Você, assim como outros cidadãos da UE em toda Londres, ajudou a tornar a nossa cidade excelente. Ao contrário dos trabalhistas e dos conservadores, os liberais democratas estão lutando por uma saída do Brexit, porque acreditamos que Londres é mais forte, mais segura e melhor na Europa - mas para isso precisamos de sua ajuda", lê-se ao abrir o cartão enviado para residências onde há pelo menos um morador da UE. "Você pode votar nas eleições locais em 3 de maio - pode ser sua última chance de votar neste país. Ao votar nos liberais democratas, enviará uma mensagem para Theresa May e seu governo conservador de que um 'Hard Brexit' (que prevê uma ruptura maior com o bloco) é ruim para você e para Londres", continua o convite.

Punição

Não são apenas os liberais que estão fazendo as eleições regionais ganharem dimensão nacional no Reino Unido - eles estão em franca campanha também para que a decisão do acordo final com a UE passe pelo aval popular. Ontem, o prefeito de Londres, o trabalhista Sadiq Khan, estimulou os estrangeiros do continente que moram na capital a aproveitarem as eleições locais da primavera para "punir" a primeira-ministra pelo caos do Brexit. Ele avaliou que o pleito é a primeira oportunidade desde o plebiscito de junho de 2016 para os cidadãos europeus protestarem contra a condução que tem sido feita nas negociações pelo governo britânico e empurrarem a primeira-ministra para um acordo mais suave.

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Os europeus de fora do Reino Unido que vivem no país não podem votar nas eleições gerais, mas são estimulados a participar das disputas locais. Ainda que o voto nessas ocasiões não seja obrigatório, o registro eleitoral nas administrações regionais é. Os números mais recentes dão conta de que a população do Reino Unido é de pouco mais de 64 milhões de habitantes, dos quais cerca de 5,5 milhões não são britânicos. Destes, mais de metade, cerca de 3 milhões, vieram de outros países da Europa. No sentido inverso, há cerca de 1,2 milhão de britânicos que vivem em algum outro país do continente.

Para a maior organização lobista dos cidadãos europeus no Reino Unido, a "the3million", o Partido Trabalhista não pode dar o seu apoio para a causa a menos que tenha garantias mais claras sobre os direitos que existirão após o Brexit. Até porque há um racha na legenda sobre o tema, já que Corbyn apoia o Brexit - inclusive a saída do mercado único e da união aduaneira. "O júri está fora do Partido Trabalhista, mas eu acho que haverá uma participação muito maior dos cidadãos da UE nessas eleições. Algumas pessoas podem votar nos liberais democratas ou nos Verdes porque eles se opuseram ao Artigo 50", previu Maike Bohn, do The3million, citando a cláusula que oficializou o Brexit em março do ano passado.

O resultado da consulta pública de junho 2016 mostrou que 48% dos votantes queriam manter as coisas como estavam em relação ao bloco comum, mas 52% aprovaram as mudanças. Alguns dos que votaram pelo Brexit já manifestaram arrependimento e a Escócia, que apoiou em massa a manutenção dos britânicos na UE chegou a ter um movimento separatista que não foi adiante. A suspensão do Brexit já foi solicitada, por exemplo, pelo ex-primeiro-ministro trabalhista Tony Blair e pelo diretor-geral do banco Goldman Sachs, Lloyd Blankfein.

As correntes que pedem por um novo plebiscito sobre o tema vez ou outra ganham força, mas Theresa May disse que não há chance de outra consulta ocorrer. Para os Brexiters, que apoiam o divórcio, qualquer tentativa de reverter o processo é uma afronta à democracia e poderia gerar uma crise constitucional. Um levantamento feito pelo jornal The Guardian recentemente mostrou que 47% dos consultados são a favor de um novo plebiscito depois que os termos do acordo entre as partes for fechado - 34% não querem reabrir o debate. Até as eleições de maio, seguem as difíceis negociações entre os britânicos e o bloco comum.

Em meio a tantas incertezas sobre o desfecho que terá o acordo, um novo partido entrou na arena política e tenta agora reverter o Brexit. A ideia do Renew (Renovação) é travar o processo a pouco mais de um ano de sua execução oficial. A nova legenda quer atrair o público insatisfeito com os políticos e com o "hard Brexit" e se autointitula de centro. A apresentação oficial do partido foi feita ontem, véspera em que o governo britânico iniciou a "Rota do Brexit", uma série de discursos feitos por autoridades locais ao longo da Europa - pela manhã, o ministro do Brexit, David Davis, falou sobre o tema em Viena, defendeu uma parceria futura com o bloco e procurou afastar "temores" de que o Reino Unido se tornaria uma espécie de "Mad Max", um país que nivelaria seus padrões por baixo e poderia adotar uma postura desleal de concorrência. 

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