Daniel Leal-Olivas/AFP
Daniel Leal-Olivas/AFP

Com campanha em crise, May radicaliza discurso para ter mais poder no Brexit

Premiê decidiu antecipar eleição parlamentar de quinta-feira quando pesquisas davam a ela votação suficiente para negociar saída da União Europeia com mais força

Luiz Raatz, O Estado de S. Paulo

04 de junho de 2017 | 05h00

A primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, aposta num discurso mais duro que agrade aos partidários do Brexit para ampliar sua base no Parlamento nas eleições de quinta-feira. A premiê tomou emprestado bandeiras da direita radical anti-imigração e construiu uma imagem de uma política não convencional dentro do próprio partido para vencer o trabalhista Jeremy Corbin.

Ao antecipar as eleições, May disse em discurso que “o Brexit dará ao Reino Unido uma oportunidade de ser um país que trabalha para todos e não para uma minoria privilegiada”. Analistas britânicos ouvidos pelo Estado concordam que a primeira-ministra colocou-se ao público como alternativa ao status quo.

“O populismo como forma de representar o povo contra o establishment político é uma estratégia de May”, disse o cientista político Matthew Cole, da Universidade de Birmingham. “May representa uma ruptura com a liderança conservadora e se apresenta como alguém de fora da ‘bolha parlamentar’.”

Steven Fielding, cientista político da Universidade de Nottingham, lembra que um dos focos da primeira-ministra é o eleitorado da classe trabalhadora pouco escolarizada – tradicionalmente fiel aos trabalhistas. “Ela tem tentado um tom mais populista. No referendo, muitos eleitores pobres apoiaram o Brexit”, disse. “Ao dizer ‘Brexit significa Brexit’, e com isso limitar a imigração, ela tem cortejado essa parcela do eleitorado.”

Corbyn, por outro lado, tem se apegado ao discurso de populismo econômico clássico, com promessas de aumento nos gastos públicos para subsidiar serviços de saúde e educação e de defesa da classe trabalhadora. Impopular dentro do próprio partido, o trabalhista deve sair fortalecido da votação.

“Muitos trabalhistas viam a eleição como uma oportunidade de enfraquecer Corbyn e tirá-lo da liderança”, acrescentou Cole. “Não deve ocorrer nem uma coisa nem outra.”

Se Corbyn tem como base o tradicional discurso trabalhista britânico, May pegou emprestado políticas mais à direita dos conservadores, algumas delas defendidas pelo Partido da Independência do Reino Unido (Ukip). Tendo como base de campanha o Brexit, May promete reforçar o combate à imigração ilegal e o terrorismo.

“Em eleições recentes, os conservadores têm conquistado 80% dos votos do Ukip”, lembrou Cole. “Com isso, os conservadores terão de cumprir as promessas: um Brexit radical e controlar a imigração. Por isso, os eurocéticos se alinham a May.”

Retrocesso. Pesquisas de opinião indicam, no entanto, que a vantagem de May pode não ser tão grande quanto ela calculava quando antecipou as eleições gerais. Em 19 de abril, quando convocou a votação, a premiê tinha em média 20 pontos de vantagem sobre o líder trabalhista, mas, na última semana, essa margem recuou.

A média diária de projeções do diário Guardian calcula uma liderança de 10 pontos porcentuais para os conservadores. Algumas pesquisas dão apenas 3 pontos de vantagem. Outras dizem que os conservadores podem ter até 12 pontos à frente. Na maioria dos cenários, no entanto, May não deve conseguir o respaldo popular que gostaria para negociar a saída britânica da União Europeia. O liberal-democrata Tim Farron, de centro, é deconhecido para mais da metade dos eleitores.

“Uma vitória por poucos pontos daria a May menos espaço para negociar o Brexit e é provável que ela enfrente dificuldades no Parlamento e no próprio partido por isso”, avaliou David Cutts, também cientista político na Universidade de Birmingham. “Ela precisa de uma maioria forte para não ter problemas na hora de negociar o Brexit.”

Segundo analistas, May cometeu uma série de pequenos erros ao longo da campanha. O primeiro deles foi incluir na pauta eleitoral vários projetos impopulares que vão além de seu projeto original de ser “a candidata que negociará o melhor acordo no Brexit”. O mais polêmico deles é o chamado “imposto da demência”, com o qual o governo pretendia cobrar a mais dos contribuintes pelo tratamento de doenças como o Mal de Alzheimer. “Um número de erros e equívocos contribuíram para a queda de May e ela deve ter uma vitória menos impressionante do que esperava”, acrescentou Cole. “Entre os erros estão políticas sociais, o Brexit e a relação com Trump.”

O debate agora reside sobre a participação na eleição. Tradicionalmente, jovens têm um nível baixo de comparecimento às urnas. No Brexit, isso foi decisivo para a vitória do “não”. Um número maior de jovens votando deve beneficiar Corbyn e reduzir a vantagem de May.

“A liderança trabalhista é muito grande entre os jovens, mas ninguém sabe quantos deles vão votar”, afirmou Fielding. Apesar disso, a força do Partido Nacionalista Escocês, reduto trabalhista, deve atrapalhar a votação de Corbyn.

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