Com Caracas em crise, Alba se esvazia

Países como Bolívia, Equador e Nicarágua estão discretamente trocando receituário bolivariano por políticas em sintonia com o FMI

Denise Chrispim Marin - O Estado de S.Paulo,

22 de dezembro de 2013 | 02h06

Maduro: projeção regional está perdendo força. (Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

A retórica anti-imperialista, as agressões à liberdade de imprensa e o controle sobre o Judiciário unem os países bolivarianos. No manejo da economia, porém, os principais aliados da Venezuela saíram pela tangente e, mais pragmáticos, adotaram um receituário mais ortodoxo.

Bolívia e Nicarágua tornaram-se os "queridinhos" do Fundo Monetário Internacional na América Latina. A Venezuela mantém-se avessa à aproximação ao FMI e fiel ao modelo econômico concebido por Hugo Chávez.

Formalizado em 2004 com o nome de Alternativa (depois Aliança) Bolivariana para as Américas (Alba), o bloco mostra-se menos coeso e alinhado em seu aspecto essencial - a adoção de um projeto de ampliação da participação e da ingerência do Estado na economia para garantir a melhoria das condições sociais e de renda da base da população. Bolívia, Equador e Nicarágua flexibilizaram essa fórmula. O trio moveu-se na direção do ajuste macroeconômico e, discretamente, da busca de capitais estrangeiros.

A crise econômica da Venezuela mostrou aos vizinhos o exemplo a ser evitado. O país crescerá apenas 1% em 2013, com desemprego de 9,2% e taxa de inflação acima dos 50%. Bolívia, Equador e Nicarágua terão desempenhos melhores.

Segundo Moisés Naim, do Carnegie Endowment for International Peace, a habilidade da Bolívia, do Equador e da Nicarágua em lidar com as políticas social e macroeconômica dispersou a Alba. O bloco não demonstra mais coesão. O elo entre esses países, a Venezuela e o restante da Alba, para ele, persiste apenas na retórica antiamericana e no modelo autoritário.

"O bolivarianismo foi criado e mantido em torno de três elementos: o carisma, o talão de cheques e as ideias de Chávez. Hoje, a Venezuela não tem dinheiro nem para comprar papel higiênico", afirmou Naim. "Postos em prática, os ideais bolivarianos resultaram em inflação alta, elevação do índice de homicídios, desabastecimento pior do que o da Síria e polarização política da Venezuela. Não se trata de exemplo a ser seguido pelos seus aliados."

A Alba continua eficaz, como bloco, quando se trata de causar barulho e sustos em foros internacionais. No dia 6, quando os países da Organização Mundial do Comércio (OMC) estavam prontos para assinar o acordo final de Bali, Venezuela, Bolívia e Nicarágua vetaram o texto - os demais bolivarianos se esquivaram. Os três países exigiam a inclusão do fim do embargo comercial dos EUA a Cuba no documento. A rebeldia acabou contornada.

Os bolivarianos receberam apoio financeiro, cooperação técnica e petróleo a preços subsidiados da Venezuela. Parte das reformas e projetos adotada pelos governos de Evo Morales, na Bolívia, de Rafael Correa, no Equador, e de Daniel Ortega, na Nicarágua, jamais sairia do papel sem esse socorro.

Mas, nos últimos anos, os três optaram pela adoção de políticas de ajuste nas contas públicas e de crescimento com inflação controlada, em respeito à orientação do FMI. Iniciativas para recuperar investimentos estrangeiros igualmente foram desenhadas.

Correa manteve a dolarização da economia equatoriana, apesar de seu discurso antiamericano. Seu governo investiu, sobretudo, em obras de infraestrutura para alavancar a injeção de investimentos produtivos e agora aposta na negociação de um acordo de livre comércio com a União Europeia. Na Bolívia, o descolamento mostra-se mais expressivo.

Assim como a da Nicarágua, a gestão macroeconômica da Bolívia foi elogiada pelo FMI neste ano. O governo de Evo mantém o discurso em favor da "retomada das riquezas do país" e da maior presença do Estado na economia, por meio da estatização e do aumento de impostos, No entanto, busca no Congresso a aprovação de reformas nas leis de investimentos, de mineração e de hidrocarbonetos para reabrir o país ao capital estrangeiro, com maior segurança jurídica.

As iniciativas refletem a consciência de La Paz de que, sem o capital estrangeiro, o país não terá como dar continuidade à exploração de gás natural na próxima década, diversificar a economia e agregar valor à produção de lítio. Evo não tem mais os cheques da PDVSA para bancar a distribuição de renda e sabe que os preços do gás podem cair a partir de 2014.

"Evo Morales não inventou a roda. Parte de seu sucesso na condução econômica é em razão dos preços internacionais mais favoráveis do gás e do petróleo. Mas ele deu poder a sua equipe econômica para seguir as recomendações do FMI", afirmou João Augusto Castro Neves, especialista da consultoria Eurásia. "Os fatores de risco estão nos movimentos sociais, que o pressionam a seguir o receituário de esquerda, e no rumo que tomará em sua campanha à reeleição, no fim de 2014."

Para Castro Neves, novas dinâmicas na região forçam os bolivarianos a aceitar a menor coesão do grupo e buscar novos parceiros. Entre essas variáveis estão as negociações da Parceria Transpacífica e da Aliança do Pacífico.

A Nicarágua, sob o comando de Ortega, seguiu o ajuste nas contas públicas recomendado pelo FMI. Em 2013, reduziu seu déficit externo graças ao investimento estrangeiro no setor produtivo. A ajuda financeira da Venezuela também ajudou o país.

Ortega, entretanto, está ciente que essa segunda torneira deve secar e, por precaução, tem elevado as reservas internacionais, adotado reformas estruturais e eliminado subsídios, como à tarifa de energia elétrica.

Para Peter Hakim, do Diálogo Interamericano, passado o período mais inflamado de expulsão de embaixadores dos EUA e de corte da ajuda americana, os bolivarianos perceberam que não poderiam depender apenas do carisma de Chávez e do dinheiro fácil da Venezuela.

Com a sucessão de Chávez por Nicolás Maduro, político sem carisma nem recursos, abriu-se o caminho para a evasão. O desafio desses líderes é atender a demanda da base da população, ainda apegada à retórica bolivariana, sob o risco da perda de seus mandatos. "Ainda é preciso certa dose de populismo", lembrou Hakim.

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