Tobias Schwarz / AFP
Tobias Schwarz / AFP

Com cautela, Alemanha tenta se adaptar ao voltar ao ‘novo normal’

Com baixo índice de letalidade e testagem agressiva, país é um dos primeiros a relaxar confinamento com novas regras

Paulo Beraldo e Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2020 | 08h32

Menos afetada pela pandemia que seus vizinhos europeus, a Alemanha se tornou um dos primeiros países a relaxar medidas de confinamento. Na última semana, pequenas e médias lojas foram reabertas e alguns estudantes voltaram às aulas. Escolas, bibliotecas públicas, salões de beleza e outros comércios voltam a funcionar  – com novas regras, como máscaras obrigatórias  – no país de 80 milhões de habitantes.

Em coletiva de imprensa nesta semana, a chanceler Angela Merkel informou que os 16 Estados da federação decidiram os primeiros passos em direção à normalização.  As novas diretrizes preveem a reabertura de lojas de todos os tamanhos, desde que sejam respeitadas regras de distanciamento social e regulações sanitárias. Os Estados irão determinar o modelo de reabertura gradual das escolas de cada região.

Pessoas de até duas famílias poderão se reunir em público, desde que mantenham distância física. Mas cautela tem sido a palavra de ordem – no governo e entre a população. “A primeira fase da pandemia terminou, mas ainda estamos no início e temos uma longa luta contra o vírus pela frente”, alertou Merkel, após afirmar que o afrouxamento das restrições só foi possível graças à estabilização da taxa de contágio e à baixa ocupação de leitos de hospitais. 

Na capital Berlim, “as pessoas estão inseguras, mas calmas”, conta o médico otorrinolaringologista Andreas Kähne. “Meus pacientes estão muito preocupados por causa do vírus, mas seguem cada instrução de segurança”. As novas medidas encerraram um enclausuramento de cinco semanas na cidade. 

“Como não tínhamos um protocolo e não sabíamos o que iria acontecer no próximo mês, havia um sentimento de tensão em todos os aspectos”, conta Andreas, que considera a reabertura importante por razões econômicas e psicológicas. 

Otimismo

Morador de Berlim, o cabeleireiro brasileiro Henrique Rocha relata um clima de tranquilidade. Em um primeiro momento, conta que houve “medo grande” e até “exagerado da população”. “Era tudo novo, mas os frequentes pronunciamentos das autoridades amenizaram isso. E as pessoas perceberam que o isolamento estava funcionand, ficaram mais calmas”.

Diretamente afetado pela pandemia – seu salão de beleza foi fechado no dia 21 de março –, Henrique se preparava para a retomada quando conversou com o Estado: estocava máscaras e aventais que se tornariam obrigatórios no salão. Para ele, a reabertura dos pequenos negócios – que começou esta semana – é positiva. 

“As pessoas estão precisando resolver pequenas coisas, como ir ao salão. Há a necessidade da vida aos poucos voltar ao normal”, diz. “Com a chegada da primavera e de dias bonitos, com temperatura acima de 20 graus, as pessoas querem sair de casa”. 

Também morador de Berlim, Carlos Vibrans conta ter sentido alegria e ‘um clima de renascimento’. “As pessoas andavam muito abatidas antes”, conta. Durante o período de isolamento, ele viu diferentes comportamentos. “Várias pessoas pareciam ignorar ou fingir que não estava acontecendo nada, enquanto outras mantinham a distância rigorosamente e regulavam os outros, como era de se esperar de alemães típicos”.

Para ele, no entanto, é necessário ter cautela. “Não vejo as coisas voltando ao normal tão cedo. As pessoas parecem ansiosas, mas ao mesmo tempo parecem entender que não vai ser uma volta ao normal”, diz. “A Angela (Merkel) disse que se as regras não forem respeitadas, as proibições voltariam”. 

Autonomia

A Alemanha é a 6ª nação com mais casos de coronavírus - 168 mil, segundo um levantamento da Universidade Johns Hopkins. As mortes somam 7.275 mil e as pessoas recuperadas, 137 mil.  

Desde o começo, a reabertura acontece de forma heterogênea nos 16 Estados que compõem o país. Antes de maio, zoológicos e academias voltaram a funcionar na região de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Em Brandemburgo, no leste, eram permitidas reuniões de até 20 pessoas. Na Saxônia, também no leste, alunos em época de exames finais voltaram às salas de aula duas semanas antes do resto do país. 

Na região da Renânia do Norte-Westfália, a mais densamente populosa da Alemanha, as regras eram mais duras. Antes da abertura de 4 de maio, não eram permitidos encontros com mais de duas pessoas. 

“Muita gente estava lutando com a sua ‘quarentena’ e tinha medo de perder os empregos, já que muitas empresas estão tendo problemas”, relata Martin Ritt, de Bielefeld. A cidade, conta, estava tão silenciosa ‘que parecia feriado’.

Ele teme que haja uma segunda onda de casos se a abertura não for lenta e gradual. “(Acho que) Ainda não é o caso de ter grandes eventos como a liga de futebol com torcida. Shows e festivais como a Oktoberfest já foram cancelados e o carnaval do ano que vem é questionável”. O campeonato de futebol retoma as atividades da primeira e segunda divisão – sem torcida – na próxima semana. 

A reabertura de cinemas, teatros e restaurantes, entre outros, permanece incerta. Merkel afirmou que cada estado está revendo as regras para ‘reiniciar’ esses setores da economia. Após o anúncio desta quarta-feira, a maior parte da responsabilidade de determinação dos próximos estágios do bloqueio será dos Estados, não de uma estratégia nacional. 

 

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