Miraflores Palace/Handout via REUTERS
Miraflores Palace/Handout via REUTERS

Com crise no setor petroleiro, países do Caribe abandonam chavismo na OEA

Venezuela usava Petrocaribe para obter apoio em organizações regionais em troca do envio de petróleo subsidiado para pequenas ilhas caribenhas

Beatriz Bulla, correspondente em Washington, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 08h00

WASHINGTON - O apoio de países caribenhos a Nicolás Maduro, que já foi capaz de barrar medidas contra o chavismo na Organização dos Estados Americanos (OEA), não é mais o mesmo. O governo da Venezuela tem perdido a sustentação diplomática dos países que formavam a Petrocaribe em razão do colapso da indústria do petróleo do país.

A Venezuela investiu nas relações com países caribenhos por meio da Petrocaribe, criada na década de 2000. O chavismo irrigava com petróleo subsidiado nações da região e, em troca, recebia o apoio em debates na OEA. Mas, com a crise econômica e as sanções americanas, a produção venezuelana despencou - e os benefícios também.

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As últimas três votações na OEA deixaram claro a mudança. Dos 14 membros da Petrocaribe - fora Venezuela e Cuba - 7 já condenam o regime chavista, engrossando a lista que conta com EUA, Canadá, Brasil e Colômbia.

Com base nas últimas votações, outros quatro países da Petrocaribe têm registrado ausências e abstenções. Apenas Dominica e São Vicente e Granadinas - junto com a Nicarágua - mantêm apoio incondicional ao chavismo. Bahamas, Suriname e Panamá oscilam nas votações.

Em 2017, o cenário era diferente. As votações que poderiam pressionar Maduro terminavam frustradas, com apenas 14 nações condenando o chavista. O número passava longe das exigências mínimas para aprovação de textos. Há casos em que é preciso o voto de dois terços dos 35 países. 

Votos contrários a Maduro cresceram após sanções

“Em 2017, tivemos um choque, porque víamos a crise acontecendo, mas muitos países não queriam votar contra Maduro. Agora, quase sempre, consistentemente, há na faixa de 20 a 21 votos contra ele”, afirma Fernando Cutz, ex-assessor da Casa Branca.

Com a mudança no perfil dos caribenhos, a oposição venezuelana têm conquistado na OEA apoio que varia de 19 a 21 votos. “Os EUA têm conseguido tirar integrantes da Petrocaribe da órbita de Maduro”, diz Benjamin Gedan, ex-diretor do Conselho de Segurança Nacional dos EUA e membro do Wilson Center.

Os laços com os parceiros, no entanto, demoraram a se desatar. “Surpreendentemente, Maduro manteve a lealdade de muitos da Petrocaribe, mesmo quando o colapso econômico minou os embarques de petróleo. A razão para a continuação do apoio é um mistério”, afirma Gedan.

Temor e afinidade mantêm últimos aliados

Para Cutz, dois motivos explicam o apoio: o temor de uma reação militar do chavismo contra países vizinhos à Venezuela, como Trinidad e Tobago e Guiana, e por afinidade ideológica, como no caso da Nicarágua. “Por último, acredito ainda que haja corrupção na hora do voto, porque o apoio a Maduro por parte de algumas ilhas pequenas não faz sentido”, afirma.

Uma das suposições de Gedan é a de que Maduro estimule uma “rede de chantagem” para manter a lealdade dos caribenhos. “Afinal, os fundos sempre foram gerenciados com pouca transparência”, afirma.

 O impasse com o bloco caribenho se refletiu na reunião dos signatários do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar) marcada para esta segunda-feira, 23, em Nova York, na véspera do começo da Assembleia-Geral da ONU. Ainda hoje, integrantes do Grupo de Lima se encontrarão.

Maduro desistiu de ir à Assembleia-Geral da ONU

Nicolás Maduro afirmou que não viajará aos EUA, o que a oposição tem comemorado silenciosamente. Para o time do autoproclamado presidente interino, Juan Guaidó, este será um sinal de que o presidente venezuelano não confia no seu núcleo próximo e teme não conseguir voltar ao país caso embarque para Nova York.

Segundo apurou o Estado, países como Brasil e Colômbia devem propor sanções pessoais e econômicas ao regime. Atualmente, o País só admite sanções decorrentes de decisões do Conselho de Segurança da ONU, mas o Itamaraty tem discutido a possibilidade de usar uma deliberação do Tiar como marco jurídico para sanções.

Entre a oposição venezuelana e especialistas, há a avaliação de que os americanos já lançaram mão de praticamente todos os instrumentos de pressão econômica disponíveis e, agora, é preciso contar com protagonismo de países como Brasil e Colômbia.

“Se só os EUA e Canadá aplicam sanções, é como um pai cortar a mesada do filho para estimulá-lo a trabalhar, mas o filho ainda receber mesada dos tios. Não adianta nada”, afirmou um diplomata de Guaidó.

 

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