Kevin Lamarque/Reuters
Kevin Lamarque/Reuters

Com demissão de Bolton, Pompeo ganha mais protagonismo 

Segundo o jornal 'Washington Post', o secretário de Estado parece compreender o humor e a agenda do presidente e sempre tenta fazer com que as coisas aconteçam do jeito dele

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2019 | 18h10

WASHINGTON - A saída do conselheiro de Segurança Nacional John Bolton do governo Trump deixou o secretário de Estado Mike Pompeo à frente dos debates sobre política externa da administração republicana. Com seu rival na disputa para influenciar o presidente fora, Pompeo, de acordo com o Washington Post, terá mais autonomia e liberdade para atuar sem ser barrado por Bolton, um total oposto em estilo e temperamento. 

Desde sua posse, Pompeo tem buscado polir sua relação com Trump. Segundo o Post, ele parece compreender o humor e a agenda do presidente e sempre tenta fazer com que as coisas aconteçam no jeito dele.  Quando eles discordam, Pompeo mantém suas impressões pessoais tão reservadas que às vezes é citado como uma sombra do presidente.  Bolton, por outro lado, parecia incapaz de manter suas opiniões para ele mesmo, como afirma o jornal. Por isso, Pompeo nem tentou parecer desapontado na entrevista coletiva na terça-feira quanto foi questionado sobre a saída do conselheiro. 

"Houve muitos momentos em que o embaixador Bolton e eu discordamos, com certeza", disse Pompeo, entre sorrisos. "Mas isso acontece com várias pessoas com as quais eu interajo." O tom jocoso de Pompeo, segundo o Post, reflete o caminho mais suave à sua frente agora à medida que ele tentar avançar os objetivos de Trump em política externa sem as interferências de Bolton. 

A Venezuela, por exemplo, é uma das questões a ser assumida por Pompeo, segundo a analista de América Latina do Brookings Brookings Institution Diana Negroponte, exatamente por ele saber o que o presidente pensa, que é não se envolver em nenhuma ação militar direta ou indereta com Caracas.

"O presidente agora acredita ter conhecimento suficiente e experiência após dois anos e meio na presidência para tomar suas próprias decisões. Ele não usará força militar e o Pentágono não deseja se envolver diretamente na Venezuela", afirmou Diana em entrevista ao Estado.  A analista disse estar surpresa que a demissão não tenha ocorrido mais cedo este ano. "O desacordo sobre Afeganistão foi a gota d'água." 

"A saída de Bolton dá a Pompeo mais espaço de manobra", diz Cliff Kupchan, presidente do think tank Eurasia Group. "Toda vez que o presidente, ou Pompeo, ou qualquer um na administração surgia com uma ideia, eles tinham de enfrentar o 'dr. Não'. Essa pessoa foi demitida. Então o restante do time, que é mais moderado, terá agora tempos mais tranquilos para seguir com sua agenda." 

Em última análise, a política externa é ditada pelo presidente, não pelo secretário de Estado ou conselheiro de Segurança Nacional. Por isso, segundo o Post, as perspectivas do impacto da saída de Bolton podem ser exageradas.  

"Trump sempre foi o decididor-chefe", diz James Carafano, analista de Segurança Nacional e Política Externa do Heritage Foundation. "Era sua política externa antes de Bolton chegar. E será sua política externa após sua saída. Não acho que o presidente se preocupe com o fato de Pompeo e Bolton discordarem. O que importa para ele é obter as decisões que ele precisa."

As diferenças entre Pompeo e Bolton eram menos ideológicas do que táticas, ainda que um grande espaço separasse os dois jeitos que eles expressavam suas visões ao presidente e em público. Mas mesmo as diferenças de estilo podem ter um grande efeito na diplomacia. No início de seu período como conselheiro, Bolton quase encerrou as conversações com a Coreia do Norte quando ele manifestou apoio público ao "modelo Líba" de desarmamento nuclear. 

A Coreia do Norte ameaçou deixar uma cúpula em Cingapura com o presidente Trump, percebendo a declaração de Bolton como uma ameaça que poderia terminar com a queda de seu regime, como aconteceu com o líder líbio Muamar Kadafi, em uma revolta popular com o apoio da Otan

"Aquilo revelou o verdadeiro lado de Bolton", disse Steve Pomper, que trabalhou no Departamento de Estado e no Conselho de Segurança Nacional na administração Obama. Pompeo, em contraste, se mostrou favorável a negociações com Pyongyang, Teerã e Taleban, todas políticas promovidas por Trump. "Bolton era ideológico e ele levou sua ideologia para o cargo junto com ele", analisa Pomper. 

Aaron David Miller, um ex-assessor do Departamento de Estado que é hoje analista de política externa do Carnegie Enddowment, afirma que Bolton efetivamente se autodestruiu com seus pronunciamentos públicos belicosos. Já o silêncio de Pompeo o permitiu prosperar. 

"Você só pode dizer não ao presidente por algumas vezes, depois, ele irá parar de ouvir você ou essencialmente te desconsiderar. Pompeo é o homem do 'sim, mas ...'. Por causa disso, ele sobreviveu. Agora, presumindo que ele continuará no cargo, Pompeo talvez tenha a oportunidade de se tornar um dos secretários de Estado mais fortes dos últimos anos", afirma David Miller. 

Divergências duraram os 17 meses de Bolton no cargo

Em 17 turbulentos meses, Trump e Bolton entraram em desacordo em uma variedade de questões, da Coreia do Norte a Venezuela e Irã. Na terça-feira, ele finalmente decidiu demitir seu mais alto assessor em Segurança nacional após uma acalorada discussão no Salão Oval desencadeada por acusações internas de que Bolton teria feito vazamentos para a imprensa, em sua tentativa de levar pessoas para seu lado na sua disputa sobre o Afeganistão com Pompeo, segundo fontes. 

Bolton era considerado por alguns na administração Trump como a fonte de diversos vazamentos de informações para a mídia que diziam que o vice-presidente Mike Pence e outros aliados se opunham a um acordo de paz com o Taleban, negociado por Pompeo. Bolton nega as acusações.

Sua destituição encerra um histórico de desentendimentos com o presidente. O Afeganistão foi o último deles, depois de Trump surpreender no sábado ao anunciar que havia convidado líderes taleban para a residência em Camp David para analisar um acordo de paz. 

Para Bolton, essas negociações eram impensáveis. O ex-conselheiro defendeu o envio de militares ao Afeganistão e ao Iraque durante o mandato do presidente George W. Bush e sempre criticou as concessões feitas aos adversários dos Estados Unidos. Trump acabou cancelando o encontro . 

Com relação ao Irã, Bolton foi um dos maiores defensores de uma ofensiva militar contra o país. Em 2015, escreveu um artigo no The New York Times sob o título: "Para deter a bomba (nuclear) do Irã, bombardeiem o Irã". Logo após Bolton assumir a chefia do Conselho de Segurança, Trump se retirou do acordo nuclear com o Irã negociado por seu predecessor Obama e adotou duras sanções contra Teerã. Mas nos últimos meses, Trump se inclinou por uma solução diplomática com a República Islâmica. 


Bolton também era conhecido por sua firmeza em relação à Coreia do Norte, e pouco antes de assumir seu cargo escreveu no Wall Street Journal que os Estados Unidos teriam razão em realizar um ataque preventivo contra o país asiático. Mas Bolton se uniu a Trump em suas duas cúpulas com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, em Cingapura e Hanói, onde aconselhou o presidente a não aceitar um acordo sem obter mais compromissos por parte de Pyongyang. Quando o presidente organizou um terceiro encontro com Kim, em junho, na Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias, Bolton se encontrava na Mongólia. 

Sobre Venezuela, Bolton liderou a aposta de Trump de tentar retirar do poder o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, cujo país enfrenta uma gravíssima crise política e econômica. Mas Bolton partiu antes de conseguir a saída de Maduro, que mantém o apoio da Força Armada seis meses após os Estados Unidos e outros países declararem seu governo ilegítimo. / W. POST, AFP e RENATA TRANCHES

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.